Crítica: Mérito de “Visceral” é envolver público na ação

SÃO PAULO – Do princípio – na sala de espera para o início do espetáculo onde o público pode conferir textos e fotos que expõem a pesquisa (de Chica Portugal) – ao fim – o desenrolar da trama no Estação Satyros –, assistir Visceral (dramaturgia de Nanna de Castro) é uma experiência imersiva bastante envolvente.

Os momentos de preparação para a ação acaba por ganhar o protagonismo do espetáculo: os textos e fotografias expostos numa espécie de sala de espera (o que concretiza o objetivo de confraternização que a ambiência teatral proporciona), a descida para a “exposição” do artista plástico João Manoel (Paulo Gabriel), o detalhe da coxinha (que no desenrolar da trama revela-se, mesmo que o recurso seja utilizado de maneira obvia, detalhe importante) servida aos espectadores personificados em visitantes da exposição dos quadros acompanhados por particular sonoridade, a visita à intimidade do crítico (muito bem interpretado por Joca Andreazza) ou ao ateliê do artista em que fica evidente sua relação de comando de sua serviçal Alice (Iara Jamra, excelente na responsabilidade de dar “respiro cômico’’ ao texto); esses elementos tornam os espectadores cientes e comprometidos com o que está por vir, integrado à ação.

Os problemas começam na ação em si: as soluções cênicas óbvias (como a associação dos indivíduos da cracolândia aos zumbis), a frágil trama que não se sustenta na discussão nem da arte nem dos usuários de crack, personagens sem construção mais vertical são alguns dos exemplos mais gritantes em Visceral. Um exemplo disso é a personagem Angelica (Chica Portugal) que por sua interpretação contundente esperava-se que a personagem fosse, dramaturgicamente, construída com mais vigor. Tal como folha de seda, a ex chefe de cozinha que abandonou tudo por causa do vício, não é capaz de se sustentar.

Contudo a solução cenográfica e a iluminação do espetáculo, tornam a encenação mais atraente, além, é claro, da experiência intermídia ser bastante original.

 

Ficha Técnica

Texto: Nanna de Castro.

Direção Cênica/Espetáculo: Dan Rossetto.

Direção Imersiva/ Instalação: Paulo Gabriel.

Elenco: Chica Portugal, Iara Jamra, Joca Andreazza, Paulo Gabriel e Alê Menezes.

Serviço

Local:  Estação Satyros – Praça Franklin Roosevelt, 134 – Centro – São Paulo.

Temporada: Até segunda feira (28). Sábados e domingos, 18h. Segundas, 21h.

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada).

Classificação: 16 anos.

Informações: (11) 3258-6345.

 

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*