CRÍTICA: “MIL MULHERES E UMA NOITE” OU SOBRE A VIOLÊNCIA E A RESISTÊNCIA

SÃO PAULO – Diz o conto que Sheerazade, a fim de escapar da sanha assassina de Sharyar – que desposava uma mulher nova a cada noite apenas para matá-la na manhã seguinte –, seduziu o rei por mil e uma noites, capturando sua atenção com histórias fantásticas e barganhando sua vida pela conclusão das narrativas.

O que pode ser lido, a princípio, como uma história de amor – o rei, afinal, se apaixona pela astúcia e graça de sua esposa, poupando assim sua vida – também pode ser percebido como uma história de violência: mais do que esposa do rei, Sheerazade é sua cativa e, antes dela, existiu um sem-número de mulheres que foram aniquiladas devido a uma visão distorcida de honra maculada, hombridade ferida, propriedade e justiça.

Usando Sheerazade como ponto de partida, As Meninas do Conto investigam a violência contra a mulher, sobrepondo às histórias clássicas d’ As Mil e Uma Noites, notícias contemporâneas de feminicídio, agressão física, estupro, cárcere privado e outros crimes bárbaros. A estratégia de incluir acontecimentos reais na ficção funciona bem por esclarecer três pontos fundamentais ao espetáculo: trata-se de uma peça baseada em histórias folclóricas, mas a violência contra a mulher não é uma fábula, ela é real como se pode notar ao ligar a TV, abrir o jornal, entrar na Internet ou ouvir as conversas da rua; embora usando  histórias milenares como base, o espetáculo acusa que a violência contra a mulher não é um assunto superado ou datado: ela permanece presente com poucas alterações acerca de métodos, motivações ou punições para os criminosos; embora utilize contos originários do Oriente Médio e sul da Ásia, o espetáculo aponta que não se trata de uma questão isolada geograficamente: Brasil, América Latina, Ocidente e Oriente, embora possuam suas especificidades, são territórios onde a emancipação, a representatividade e a liberdade femininas ainda não são pontos pacíficos.

A direção de Eric Nowinski é hábil ao equilibrar o exotismo e o deslumbramento que As Mil e Uma Noites inspiram com a violência abjeta que o espetáculo denuncia. Tome-se como exemplo a cena da cozinha e sua boa transformação, indo do acolhedor e quase cômico para o chocante e repulsivo – mérito também da atriz Silvia Suzy Pereira, que consegue cativar o espectador apenas para lhe dar um soco na cara quando sua guarda está abaixada.

A opção de configurar o espetáculo como uma itinerância também possibilita soluções pouco usuais, indisponíveis caso tudo se passasse num espaço único. Vale prestar atenção na cena do cortejo de casamento, onde o reflexo do elenco é multiplicado pelos vidros da claraboia da Oficina Cultural Oswald de Andrade, e o que era uma dezena de mulheres se torna uma centena – o que é uma boa metáfora tanto para a abrangência dos temas abordados quanto para a força feminina em conjunto.

Embora resulte em algumas descobertas felizes, cabe apontar que a opção de utilizar múltiplos espaços faz o espetáculo cair nos problemas inerentes a esse formato: o deslocamento de um cenário ao seguinte às vezes prejudica o ritmo do todo e ainda que algumas cenas dialoguem com o local onde se passam (como ambas as cenas de Julanar, que usa bem as projeções e explora espaços ora apertados e ora amplos, explicitando a dinâmica de prisão e liberdade na qual a personagem está imersa), em outros casos tudo parece meio genérico.

É visível a liberdade que cada atriz teve para construir sua cena, o que garante variação de temas e estéticas e evita que o espetáculo caia na repetição, o que diluiria a força de sua denúncia. O coletivo de artistas criadoras formado por atrizes, cantoras e musicistas é, aliás, o alicerce do espetáculo. Excelente como coro e bom individualmente (ainda que alguns monólogos eventualmente fiquem presos à forma e percam um pouco de sua pungência), o elenco consegue encantar a plateia e defender sua pauta com destreza e honestidade. Vale a pena destacar as presenças da já citada Silvia Suzy, de Lílian de Lima e de Norma Gabriel Brito, que conseguem colocar texturas e contrastes em suas cenas, enriquecendo-as e ampliando a potência de suas denúncias.

Com o lastro de um tema essencial e bem executado, Mil Mulheres e Uma Noite faz jus à boa temporada que tem cumprido ao longo do ano, além de ser um ponto alto na carreira sólida do coletivo – além, é claro, de ser um convite a um debate urgente.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Mil Mulheres e Uma Noite
Dramaturgia: Grupo As Meninas do Conto, em colaboração com Cassiano Sydow Quilici.
Direção: Eric Nowinski.
Atrizes: Danielle Barros, Helena Castro, Lilian de Lima, Lívia Salles, Norma Gabriel, Silvia Suzy e Simone Grande.
Musicista: Ana Rodrigues.
Direção de arte: Yumi Sakate.
Direção Musical e Preparação Vocal: Fernanda Maia.
Preparação Corporal, Direção de Movimento e Coreografia: Letícia Doreto.
Desenho de Luz: Eric Nowinski.
Assistente de direção de arte e contrarregagem: Diego Dac.
Operação de luz: Gabriela Araújo.
Designer: Aida Cassiano.
Fotografia: Júlia Chequer.
Edição de áudio: DNAudio.
Captação e edição audiovisual: Bruta Flor Filmes.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli.
Produção: Joice Portes.
Adminstração: Regiane Moraes.

Serviço:
Até 30 de junho. Sextas-feiras às 21h e sábados, às 20h.
Ingressos: Grátis (Distribuição de ingressos a partir de 1 hora antes da apresentação).
Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363, Bom Retiro (próximo a estação Tiradentes do Metrô).

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