CRÍTICA: “MISANTHROFREAK”, OU SOBRE A INABILIDADE

image003Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Solo brasiliense em cartaz no Viga Espaço Cênico lança mão de recursos multimídia para investigar o fracasso e o patético inerentes no ser humano. A curtíssima temporada vai até amanhã (14).

Em determinado momento, lá pelo meio de Misanthrofreak, o performer idealizador Rodrigo Fischer exibe um trecho de Curtindo a Vida Adoidado, clássico oitentista (e os anos 1980 – sobretudo o lado brega e decadente deles – são uma presença forte no espetáculo, da estética à trilha sonora). A inserção do trecho faz bastante sentido no todo: Ferris Bueller,  protagonista do filme, ficou marcado para toda uma geração como o garoto descolado, o líder do grupo que sabe aproveitar a vida e consegue fazer com que as coisas dêem certo para si – o extremo oposto da persona insegura e incapaz que Fischer encarna no palco.

Investindo na ironia e no pessimismo, Fischer repete algumas vezes a frase final do monólogo de Bueller (“a vida passa muito rápido, e se você não curtir de vez em quando, a vida passa e você nem vê”) vendendo uma mensagem pró-qualidade de vida que, dentro do contexto de Misanthrofreak, parece descolada da leveza de um filme da Sessão da Tarde, estando mais próxima da afirmação de que “muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão”, do terror O Iluminado – isso para nos mantermos no recorte de filmes da década de 1980.

Apesar da inteligente ressignificação, existe uma fala no começo do monólogo de Bueller que passa despercebida, embora diga muito sobre o espetáculo a que assistimos. É a seguinte: “Inacreditável. Uma das minhas piores atuações e eles não duvidaram de mim nem por um minuto”.

De fato, há algo tanto em Misanthrofreak quanto na atuação de Fischer consideravelmente ruim. O todo é meio tosco, meio mal-ajambrado, meio desengonçado– e em se tratando de um espetáculo que deseja tratar do fracasso, isso é um ponto positivo. Colocando seu objeto de estudo não só no discurso, mas também na forma, o Grupo Desvio produz assim um anti-espetáculo, um evento que funciona por não funcionar, que se constrói para ser implodido, algo que existe na interseção, na suspensão antes da queda. Deste modo, o solo multimídia nega qualquer intenção de arrebatar a plateia e habita bem o espaço que escolhe para si: o da estranheza discreta, o do ponto de interrogação que fica no rosto do espectador por não saber se aquilo no palco é atuação ou vida real – tome-se por exemplo o momento em que Fischer agradece à plateia pela sua presença, sem que ninguém tenha muita certeza se aquele é o final da sessão de fato ou só outra cena do não-espetáculo.

Por outro lado, a segunda perna da pesquisa de Misanthrofreak – o ponto de encontro entre teatro e cinema – não parece tão firme. Embora o grupo mostre-se à vontade com os recursos com os quais decide trabalhar e tecnicamente tudo funcione a contento – e mesmo aquilo que pode ser considerado tosco parece estar em função da estética –, criativamente as intervenções em vídeo são pouco inventivas. Não existe nenhum recurso audiovisual presente no solo que já não tenha sido visto nos palcos de paulistas recentemente. Seja o ator que interage com o cenário projetado, seja a plateia que é capturada pelas câmeras, seja o performer que dialoga com sua contraparte virtual, tudo já foi visto antes. Embora isso não tire o valor da pesquisa, talvez seja algo a se levar em conta.

Assim, fracassando (e por isso mesmo acertando), e utilizando o fracasso como objeto de estudo, posicionamento e razão de ser, o solo defende que todos somos deficientes. E há algo de potente nisso.

MISANTHROFREAK

Direção, atuação, texto, som e desenho de luz: Rodrigo Fischer
Desenho de vídeo e animação: Brent Felker e Fernando Gutiérrez
Produção e Figurino: Diana Diniz
Cineastas: Peter Azen e Juliano Chiquetto

Serviço
De 11 a 14 de outubro, terça a sexta, às 21h.
Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros, São Paulo
Ingressos: R$ 20,00 ou R$ 10,00 (meia)