Crítica: Montagem clara e objetiva de “O Martelo” contribui para comicidade do texto

SÃO PAULO – Alexandre Reinecke optou por realizar uma linguagem bastante objetiva para verticalizar o texto de Renato Modesto, contribuindo, assim, para que o espectador captasse mais claramente a mensagem subjetiva e inteligente proposta pelo autor. Entretanto, a criação minimalista do ator Edwin Luisi, utilizando todos os elementos caros aos atores (rítmica corporal, nuances vocais etc.), revelam um tom hilariante à montagem de O Martelo em cartaz no Teatro Novo até o dia 07 de abril.

O advogado Pedro e sua esposa, respectivamente Anderson Müller e Natallia Rodrigues, formam, um casal “normal” para os padrões sociais. Ele, estressado com os problemas cotidianos do escritório, ela, nervosa por não dar conta dos afazeres da casa (já que está sem empregada) e, também, com o resultado do exame que fez (para atestar sua possibilidade de engravidar). Enquanto conversam sobre o dia de cada um, toca a campainha. Surge então, o investigador João (Edwin Luisi) que começa inquirir o advogado até revelar que o mesmo é suspeito de uma série de crimes envolvendo jovens mulheres recém-casadas e que acabaram de ter filhos.

A cena em que o investigador começa o “interrogatório” informal de Pedro revela o tom da montagem e do texto. A dramaturgia de Renato Modesto bebe dos suspenses policiais, exponentes do cinema noir. Já a encenação de Reinecke se revela bastante objetiva, sobretudo na caracterização farsesca – quase caricata – das personagens: o detetive João, por exemplo, virtude da criatividade de Edwin Luisi e muito bem aproveitada por Reinecke, ganha contornos extremamente hilários seja numa prosódia incriminadora, seja nas ações físicas que utilizam a deficiência física da personagem em favor da comédia.

Outro traço interessante da dramaturgia de O Martelo consiste na mudança de atores vivendo cada um dos personagens. É como se a visita o investigador João embaralhasse a mente de Pedro, que passa a ser vivido por Edwin Luisi que está a caminho da polícia, onde prestará depoimento ao investigador (agora interpretado por Anderson Müller). Para completar o quiproquó, Natallia Rodrigues aparece como o psiquiatra que realizará um exame forense em Pedro. Esse jogo vaudevillesco de entra e sai de personagens na pele de atores que outrora interpretavam papeis definidos na primeira cena, é o ponto alto empregado por Modesto: realidade e ilusão se confundem a ponto do público não saber o que é fato ou sonho.

A primeira montagem do texto o belíssimo cenário de J. C. Serroni dava um tom mais subjetivo ao espetáculo, o que exigia um outro tipo de esforço do espectador: talvez um esforço que, quem busca uma comédia de entretenimento não esteja disposto a pagar. Sendo assim, tal montagem de O Martelo atinge seu objetivo maior: divertir. Ponto para Alexandre Reinecke, Anderson Müller, Edwin Luisi e Natallia Rodrigues.

Se você busca um entretenimento de qualidade, é melhor correr ao Teatro Novo, porque acaba dia 07 de abril!

 

FICHA TÉCNICA

Autor: Renato Modesto

Direção: Alexandre Reinecke

Elenco: Edwin Luisi, Anderson Müller e Natallia Rodrigues

Figurinos: Kleber Montanheiro

Cenário: Márcia Pires

Iluminação: Fran Barros

Trilha Sonora: Daniel Maia

Fotografia: João Caldas Fº

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Direção de Produção: Edinho Rodrigues e Paulo Del Castro

Realização: Brancalyone Produções e Tiaraju Produções Artísticas e Culturais

SERVIÇO

O Martelo, de Renato Modesto

Teatro Novo  Rua Domingos de Morais, 348 – Vila Mariana.

Temporada: 18 de janeiro a 07 de abril

Às sextas e sábados, às 21h e domingo às 19h

Ingressos: Sexta: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia-entrada); Sábado: R$ 70,00 (inteira) e R$ 35,00 (meia-entrada); Domingo: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia-entrada)

Classificação: 14 anos

Duração: 80 minutos

Informações: (11) 3542-4680

Bilheteria: terça e quarta das 14h às 19h; quinta a domingo das 14h até início dos espetáculos

 

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado