Crítica: Não Nem Nada é um espetáculo que fala ao nosso tempo

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

"Não Nem Nada" fica em cartaz só até 18 de outubro, no Teatro Núcleo Experimental. Foto: divulgação
“Não nem Nada” fica em cartaz só até 18 de outubro, no Teatro Núcleo Experimental. Foto: divulgação

SÃO PAULO – Não nem Nada é um espetáculo que nos apresenta a nossa aflição e delícias do hoje. Dessa tal pós-modernidade – na qual vivemos, mas ainda não tem termo exatamente definido. São 12 cenas com narrativas, cenário e atores em total agilidade. A tecnologia, as nossas relações, o telemarketing, a busca pela fama no universo do “parecer é o que vale” e dos debates cheios de certezas irrefutáveis.  Tudo posto em cena por Vinicius Calderoni, que estreia como autor e diretor.

O palco é nosso espelho e ali vemos e podemos discutir pela arte a fragmentação pelas quais estamos sendo formados enquanto indivíduo, ideias e ideais. O texto é montado como uma junção de recortes de jornais. O cenário é assim também: recortado, com caixas que abrem, mudam e se transformam com rapidez. 

"Não Nem Nada" fica em cartaz só até 18 de outubro, no Teatro Núcleo Experimental. Foto: divulgação
“Não nem Nada” fica em cartaz só até 18 de outubro, no Teatro Núcleo Experimental. Foto: divulgação

Assistir a peça dirigida por Vinicius Calderoni (ao lado do co-diretor Rafael Gomes) lembrou- me A crise, o primeiro capítulo do livro Jamais Fomos Modernos do antropólogo, sociólogo e filósofo Bruno Latour. O texto expõe as notícias de jornal, que nos são dadas fragmentadas em editorias, mas também misturadas nos assuntos que tratam.

“Nós somos híbridos, instalados precariamente no interior das instituições científicas, meio engenheiros, meio filósofos, um terço instruídos sem que o desejássemos, optamos por descrever as tramas onde quer que elas nos levem. Nosso meio de transporte é a noção de tradução ou rede. Mais flexível é a noção de sistema, mais histórica do que a de estrutura, mais empírica do que a de complexidade”. (Latour, 1994, p. 9).

O universo que nos apresenta Não nem Nada talvez possa ser confundido como um espetáculo jovem, da geração Y (e foi escrito por um jovem). Mas é bem mais do que isso: é um retrato para o palco, ainda que despretensioso, dos fenômenos sociais e culturais do hoje. Além de Latour poderíamos citar Ulrich Beck, Gilles Lipovetsky, Zygmunt Bauman….

Claro que Não nem Nada não é um estudo acadêmico ou algo que se assemelhe. E por isso, fiz questão de cunhar o termo despretensioso. Mas sem querer, de forma bem leve e divertida nos coloca esse espelho que já vem sendo tratado na academia e merece ser tratado com respeito pelo teatro também.

Muitas peças tratam do individuo, de fenômenos contemporâneos e etc., mas nenhuma traduz de forma tão clara a fragmentação e as relações como Não nem Nada.

Serviço:

Não Nem Nada

Texto e direção de Vinicius Calderoni

Co-direção de Rafael Gomes

Um espetáculo do Empório de Teatro Sortido.

Com: Geraldo Rodrigues, Mayara Constantino, Renata Gaspar e Victor Mendes

Indicação de faixa etária – 14 anos

Sextas às 21:30 / Sábados às 21:00/ Domingos às 19h

Duração: 60 minutos

Teatro do Núcleo Experimental

  1. Barra Funda, 637 – Barra Funda, São Paulo – SP, 01152-000

(11) 3259-0898

Temporada: 29 de agosto a 18 de outubro 2014

60 lugares

Preços- R$ 30,00 Inteira / R$ 15,00 Meia

A bilheteria do teatro abre uma hora antes do espetáculo e há possibilidade de adquirir o seu ingresso através do site: www.compreingressos.com.br

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado