CRÍTICA: “NATURALEZA MUERTA” OU A VIOLÊNCIA PERPÉTUA

naturaleza-muerta_foto-jonatas-marques_62Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Baseado em Gracias por El Fuego do uruguaio Mario Benedetti, espetáculo usa da metáfora de quatro mulheres num restaurante no meio do nada para falar da sociedade atual. A temporada segue até 30 de outubro, no Armazém da Vila Maria Zélia.

Pense em todos os atos de violência que já cometeram contra você.

Agora, pense em todos os atos de violência que você já cometeu.

Em seu livro A Preparação do Diretor, Anne Bogart elenca sete elementos que sempre a acompanham quando cria um espetáculo. São eles memória, erotismo, terror, estereótipo, timidez, resistência e violência. Para ela, a criação é algo violento, pois rompe a ordem vigente para reorganizá-la, agora levando em consideração a adição do objeto criado. Violento seria, portanto, qualquer corte que façamos no fluxo das coisas, para que possamos inserir neste espaço recém criado um pouco de nós mesmos.

Se cada ação que tomamos poderia ser considerada violenta por sua força e sua capacidade de impactar o meio e o outro, então a sociedade em que vivemos seria uma imensa rede de violências e pontos de tensão articulados por ela, numa eterna dinâmica de propor algo e aceitar/responder/reagir a aquilo que foi proposto pelo outro. Da mesma forma que é violento um rio caudaloso, também precisa ser violenta a rocha que resiste à correnteza.

Assim, Naturaleza Muerta, criação das atrizes Gabi Costa, Juliana Sanches, Maria Carolina Dressler e Tatiana Ribeiro e do diretor Rodolfo Amorim baseada no livro Gracias por El Fuego, de Mario Benedetti, é de certa forma bastante violenta. Partindo da metáfora de quatro mulheres num restaurante no meio do nada para refletir sobre a sociedade em que estamos inseridos, sobre a vida que levamos e sobre o que é ser mulher/negra/latino-americana nos dias de hoje, o espetáculo é a rocha que resiste à correnteza e por oferecer-se como contraponto, nos permite observar melhor as águas que correm.

Tão violentos quanto a aranha que traça a teia para devorar a mosca, ou a lagartixa que expande seu corpo para comer a barata, os homens também são violentos entre si ao se imporem e ao tentarem conquistar outros territórios, reais ou metafóricos. O assédio, a dominação, a alienação são formas de lutar – ênfase em “lutar” – pelos territórios que desejamos. É violenta a manutenção do poder, posto que ela depende de vários, muitos deles inclusive ansiosos por mostrar sua força.

Lançando mão de um realismo fantástico que amplia o absurdo e o caótico (e que transita constantemente entre o otimismo e o pessimismo), o grupo foge de respostas fáceis ou de colocações ingênuas para defender suas ideias. Muito do seu sucesso se dá ao conjunto de talentosas atrizes-criadoras, inteligentes ao transformar em material poético suas visões de mundo e hábeis ao compor personagens multidimensionais, que não se limitam às definições rasas de algoz ou vítima. Ao expor suas contradições, pecadilhos e visões de mundo, o elenco constrói um painel multifacetado de violências sofridas e cometidas, sem necessariamente apontar uma solução.

Consciente da briga que comprou e acreditando nas armas que emprega, Naturaleza Muerta é um potente grito de guerra.

NATURALEZA MUERTA
Texto: Tatiana Ribeiro.
Direção: Rodolfo Amorim.
Assistente de direção: Bruno Canabarro.
Elenco: Gabi Costa, Juliana Sanches, Maria Carolina Dressler e Tatiana Ribeiro.
Produção: Vanessa Candela.
Figurinos: Juliana Sanches.
Cenografia: Cristiano Panzarin.
Iluminação: Daniel Gonzalez.
Preparação de ator: Inês Aranha.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli.
Idealização: Cia La Desdeñosa.

Serviço:

Até 30 de outubro. Sábado a segunda, 20h.
Grátis, com retirada de ingressos com uma hora de antecedência.
Vila Maria Zélia. Rua Mário Costa, 13, Belém.