Crítica: “Nefelibato” é convite à consciência da miséria brasileira

 

SÃO PAULO – O espetáculo Nefelibato faz suas últimas apresentações na sede da Cia da Revista. Essa é a segunda temporada da montagem encenada por Luiz Machado, com direção de Fernando Philbert, na capital paulista. O solo narra a história de Anderson, que depois de ter suas economias confiscadas no início da década de 1990 pelo plano Collor, perder um ente querido e um grande amor, vai morar nas ruas. Embora tenha como mote um período específico do Brasil, os paralelos com o hoje não podem ser ignorados.

A dramaturga Regiana Antonini traz a experiência de muitos brasileiros para a cena, mas é a interpretação de Luiz que faz o público transpor o pano histórico para tratar de memórias de moral e nos faz repensar o país e olhar ao outro. Aliás, o tempo todo somos como espectadores de circo que olham uma grande atração ignorada ou razão de fuga no dia a dia: a miséria humana.

As memórias se confundem com a loucura e dialogam com a criação dos objetos em cena, da luz que remonta passagens. Tudo simples e significativo ao mesmo tempo. Nefelibato – o título da peça – significa “quem vive nas nuvens”. Paradoxo de uma esperança louca, porque em uma situação de desespero e perdas, o que nos resta? O país tem mais de 12 milhões de desempregados e esse discurso – por diferentes razões – ainda nos serve, infelizmente.

Luiz emociona com o olhar. Penetra na alma e nos faz questionar, em plena área de cracolândia paulistana, onde Nefelibato está em cartaz, toda a realidade que tentamos fazer invisível está ali e coexiste com a cidade.

Inclusive, o espetáculo que teve apresentação para pessoas em situação de rua – em uma inclusão rara de vida real com arte representativa. E ele os tocou e nos toca com uma mensagem de esperança necessária aos nossos tempos, uma prova que a poesia e o teatro são necessários no caos social mais do que em outras épocas (talvez).

Com supervisão de direção de Amir Haddad, Nefelibato fala da história, de Brasil e conversa aos nossos tempos, com uma interpretação visceral de Luiz Machado.

Ficha Técnica
Texto
: Regiana Antonini
Interpretação: Luiz Machado
Supervisão artística: Amir Haddad
Direção: Fernando Philbert
Cenografia e figurino: Teca Fichinski
Iluminação: Vilmar Olos
Direção de movimento: Marina Salomon
Preparação vocal: Edi Montechi
Assistência de direção: Alexandre David
Produção: Corpo Rastreado
Nefelibato
Temporada: de 7 de setembro a 6 de outubro de 2019, sábados às 21h, domingos às 19h
* no dia 22 de setembro não haverá sessão
Local: Teatro da Cia de Revista – Alameda Nothmann, 1135 – Santa Cecília, São Paulo – SP, 01216-001 | Telefone: (11) 3791-5200
Duração: 60 minutos | Classificação: 14 anos (indicado para maiores de 2 anos)
Ingresso: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia entrada)
Capacidade: 85 lugares

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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