Crítica: O brilho da dialética pirandeliana ilumina a temporada

Afonso Gentil, para o Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com

 

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

SÃO PAULO – Em contraponto aos levianos preceitos dos predadores do teatro da palavra, da Ideia, que pululam – pasmem! – até entre professores de artes cênicas, de turva visão, com a presença do texto maior de Pirandello, Assim é (se lhe parece), fez-se a Luz no teatro do SESC Vila Mariana. Isso através da coragem do diretor Marco Antônio Pâmio, em montagem de fervilhante criatividade, que vem tendo excelente acolhida do público.

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Trazer de volta esse texto de Luigi Pirandello, de quase (1917) cem anos de idade, um dos mais festejados desse autor de monumental escrita dramatúrgica (foi também poeta e romancista, ganhador do Nobel de Literatura), é um marco – sem trocadilho com o nome do diretor – que só pontua em décadas.

A encenação de Adolfo Celi, em 1953, no TBC ( Teatro Brasileiro de Comédia), com Cleide Yáconis e Paulo Autran causou inusitado arrebatamento de uma plateia acostumada  ao suceder ininterrupto de icônicas encenações de clássicos da dramaturgia universal. A tal ponto, que o nosso maior crítico teatral, Décio de Almeida Prado, assim imortalizou sua visão à época da estreia:  “Com duas palavras define-se Assim é (se lhe Parece): o melhor espetáculo que o Teatro Brasileiro de Comédia apresentou até hoje. Um dos melhores como peça, certamente o  melhor como homogeneidade, como interpretação individual dos atores e, particularmente como direção”  (transcrito do livro Apresentação do Teatro Brasileiro Moderno/ Livraria Martins Fontes Editora S/A, fls 403).

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Em 1985, no Rio de Janeiro, o talentoso ator e diretor Paulo Betti também foi muito elogiado pela crítica em versão para o Teatro dos Quatro. À frente  do elenco, José Wilker, Nathália Thimberg e Sérgio Brito. Seriamos injustos não citarmos montagens de outros textos “menores” de Pirandello, desde as de José Renato nos primórdios do Teatro de Arena, às mais recentes do excelente Cacá Carvalho e uma muito bem sucedida da atriz Débora Duboc.

                              A DIALÉTICA PIRANDELIANA

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Uma ideia perseguiu Pirandello em toda a sua obra, com menor ou maior ênfase. A de que não existe, para nós humanos, uma verdade absoluta; somos multifacetados pelo olhar alheio, assumimos a personalidade imposta de fora para dentro de nós mesmos. O desafio é esse permanente confronto da verdade aparente, aquela da cada um e aquelas outras que soterram qualquer tentativa de absoluto. É uma ideia fascinante, que se desdobra em mil facetas, todas paradoxais, permitindo à dialética pirandeliana argumentos solidamente esculpidos, de um lado, em contraponto aos seus contrários, trazendo à tona reflexões profundas sobre o mistério da mente humana.

Assim é - Rubens Caribé Amanda Hayar Martha Meola e Joca Andreazza - cred Heloisa BortzMas, voltemos, para finalizar, a esta ora esfuziante, ora dilacerante, mas, sempre lindamente criativa encenação do diretor Marcos Antônio Pâmio, bem acompanhado pelo figurinista/cenógrafo Fábio Namatame, pelo iluminador Caetano Vilela e pelo tradutor Sérgio Nunes Melo. E por um numeroso elenco de primeiros nomes (a começar de Joca Andreazza e Rubens Caribé), coeso e espertamente sintonizado com os propósitos da direção, tendo à frente uma irrepreensível e emocionada atuação de Bete Dorgan, candidata a nosso ver à indicação de melhor do ano.

Se Décio de Almeida Prado estivesse vivo repetiria, agora, sem pestanejar, suas palavras reproduzidas no corpo desta crítica.

PS: parabéns ao SESC São Paulo por abrigar em seu teatro da Vila Mariana este monumento do pensamento universal, Luigi Pirandello.

 

SERVIÇO: Assim É (Se Lhe Parece)/ Teatro SESC da Vila Mariana/Rua Pelotas, 141/ 608 lugares /telefone 5080-3000/6as e Sab. 21 h, domingos 18h/ Ingressos de R$7,00 a 35,00/Até 18/5/12 anos.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado