CRÍTICA: “O CORAÇÃO DOS HOMENS”, OU ESCRITA DE SANGUE

o-coracao-dos-homensFernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Baseado no texto de Veronica Stigger, monólogo com Fernanda Cunha se debruça sobre o universo feminino ao acompanhar a vida de uma mulher até a fase adulta. O espetáculo fica em cartaz até 19 de dezembro, de sexta a segunda, no Cemitério de Automóveis.

Diz-se que viver é uma luta e, do mesmo modo, é sabido que o produto de toda luta é o sangue. Não é por acaso, portanto, que o sangue seja o fio condutor de O Coração dos Homens, monólogo de Veronica Stigger, dirigido por Henrique Stroeter e interpretado com desenvoltura por Fernanda Cunha.

Transitando da brancura da neve rala ao vermelho menstrual, o espetáculo acompanha a vida de uma mulher, das memórias de infância à vida adulta, e expõe as pequenas violências do dia a dia a fim de discutir a cegueira seletiva, a hipocrisia, o choque interpessoal e, sobretudo, como é ser mulher nos dias de hoje.

O que pode parecer arriscado num primeiro momento – contar uma vida condensada em uma hora – revela-se a força do espetáculo, que funcionaria de modo menos azeitado se fosse de outro modo. A condensação de ações e a agilidade de passagens conferem ao espetáculo uma ligeireza que acentua bem os momentos cômicos, ao mesmo tempo que faz com que a piada não se esgarce; e confere precisão aos momentos mais delicados, evitando que tudo caia nas armadilhas do melodrama.

A opção pelo monólogo, estrutura das mais desafiadoras, também revela-se feliz, em grande parte graças à performance de Fernanda Cunha. A atriz, valorizando a raiz literária do material com o qual trabalha, apresenta um consistente trabalho sobre a palavra, variando tons e ritmos para colorir melhor as paisagens que delineia a partir do que é dito. Cunha também apresenta habilidade nas mudanças de registro, indo do realista e intimista ao caricatural e expansivo sem grandes desconfortos. Esta constante oscilação é, aliás, uma das melhores coisas do espetáculo, que se mantém ágil, sem ser raso, ao longo de todo seu percurso.

As imagens propostas pela encenação também enriquecem a narrativa, potencializando o que o texto de Stigger tem de melhor. Os elementos vermelhos – as pétalas, o batom, o abajur, a luz – salpicam o palco e formam um belo contraste com a brancura da neve que delimita o chão, da mesma forma que a maçã mordida ao lado de uma imagem religiosa relê o Gênesis – esta, talvez, a imagem mais marcante do espetáculo, sobretudo quando posta em contraponto ao pedido de proteção da Virgem. Há muita força numa mulher que, duvidando que alguém poderá interceder por ela, sente-se poderosa e confortável no próprio corpo, e o espetáculo cresce muito ao se apropriar disso.

Partindo do individual para falar do coletivo, Stigger e Cunha parecem concordar que a vida como mulher é luta e que envolve, sob diversos aspectos, sangue. Da mesma forma, parecem conscientes das armas que têm em mãos – a arte, aparentemente, uma das mais eficazes.

O CORAÇÃO DOS HOMENS

Texto: Veronica Stigger
Direção: Henrique Stroeter
Assistente de direção: Daniel Mazarollo
Atriz: Fernanda Cunha
Designer de luz: Fran Barros
Cenário e figurino: Marco Lima

Serviço
Até 19 de dezembro. Sextas e sábados, às 19h, domingos às 18h e segundas às 20h.
Ingressos: R$ 20,00 , R$ 10,00 (meia) e R$ 5,00 (estudantes de teatro, mediante comprovação)
Cemitério de Automóveis. Rua Frei Caneca, 384. Consolação.

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