CRÍTICA: “O CORPO QUE O RIO LEVOU”

 

SÃO PAULO – É comum que algumas obras de arte reflitam seu tempo. A produção e fruição artísticas são, afinal, possibilidades de reflexão, de observar determinado assunto sob uma nova ótica e perceber aspectos que ficariam ocultos por qualquer outra forma de abordagem.  É fácil encontrar, por exemplo, obras contemporâneas que investiguem a vida em grandes centros urbanos, e como a sociedade lida com o ritmo, as provocações e as consequências da vida na cidade.

O que O Corpo Que O Rio Levou propõe é uma observação do período do regime militar brasileiro na tentativa de mapear as reverberações destes tempos nos dias atuais, a partir do conceito de dramaturgia muralista proposto por Oswald de Andrade. Para Ave Terrena, responsável pelo texto, a ideia é lançar diversos olhares sobre o mesmo assunto, conseguindo assim uma visão mais ampla do todo.

A estratégia surte algum efeito quando coloca os personagens em confronto – por exemplo, quando as duas atrizes num teste demonstram opiniões diferentes sobre a possibilidade de o diretor americano do espetáculo em questão estar ou não apto para falar da cultura brasileira sendo, afinal, um gringo; ou quando as mesmas personagens realizam a mesma e chegam a resultados completamente diferentes, coerentes com suas visões de mundo.

Na tentativa de tentar manter o debate abrangente, o texto encontra espaço para citar as manifestações pró e contra o impeachment, que ganharam força a partir de 2014, e para falar do processo criativo de um espetáculo teatral.

Se o esforço para refletir sobre política a partir da poética é interessante, o espetáculo perde um pouco da força quando trata das relações humanas, seja entre os membros da companhia que estão para estrear uma versão tropical de Hamlet, seja entre a atriz e seu marido. Claro que a micropolítica e as relações de poder interpessoais são fundamentais para entender o macro (não à toa, machismo, abuso de poder e pequenas traições são eventualmente abordados), mas volta e meia o espetáculo tomba para um melodrama que enfraquece o todo.scalada para ser a protagonista de Ofélica Latina, o espetáculo dentro do espetáculo, e seu marido Abelardo, às voltas com um roubo a uma agência de banco, são importantes para que entendamos a relação entre os dois e percebamos o impacto que a morte dele terá sobre ela lá pelo fim da narrativa. Contudo, para construir essa relação, a dramaturgia gasta muito tempo com um drama corriqueiro, com picuinhas de marido e mulher que parecem pueris perto do escopo maior com o qual O Corpo flerta. Quando os dois eixos da história, o micro e o macro, se encontram, a aproximação parece tão artificial que o resultado tem menos força do que poderia ter.

Talvez se as discussões sobre ir ou não para a festa da família do cônjuge tivessem menos espaço e se o arco de Abelardo não fosse tão eclipsado pelo de Elza, o resultado fosse melhor azeitado. Ou talvez o grupo encontre novas possibilidades de apresentação de temas nos próximos espetáculos.

O uso de vídeos e projeções consegue se articular melhor entre todas as demandas da dramaturgia, ressignificando e extrapolando o espaço cênico. A estratégia de colocar atores para contracenar com seus colegas em vídeo também é simples, mas eficiente, por causar um estranhamento na plateia e por injetar no jogo algum risco – fico curioso por saber como o elenco se viraria caso os vídeos travassem nas cenas mais tensas, e quais questões essas falhas detonariam.

Visto como espetáculo solo, O Corpo Que O Rio Levou se apresenta como um estudo sobre a história recente do país que ora apresenta um olhar inventivo sobre os temas em pauta, ora parece ter muito para lidar e não sabe organizar tudo o que tem em mãos. Visto dentro de um projeto um pouco maior – já que o coletivo já manifestou interesse em continuar a investigação – , ele se firma como um primeiro passo de uma caminhada mais longa, onde os eventuais pontos baixos podem ser aprimorados no futuro, ou assumidos como características do trabalho.

O CORPO QUE O RIO LEVOU
Direção – Diego Moschkovich.
Dramaturgia – Ave Terrena.
Elenco – Diego Chilio, Fredy Állan, Maria Emilia Faganello, Sofia Botelho e Sophia Castellano.
Direção Musical – Felipe Pagliato e Gabriel Barbosa.
Direção de Vídeo – Camila Márquez (NIT).
Iluminação e Cenografia – Wagner Antônio.
Figurino – Diogo Costa.
Produção – Laura Salerno.
Realização – Laboratório de Técnica Dramática

Serviço
Até 9 de abril. Sexta-feira e sábado às 21 horas e domingo às 20 horas
Dia 10 de março, sexta-feira, ingresso promocional  (R$ 3,00), dia 1º de abril, sábado, às 17 horas, bate-papo antes do espetáculo com convidados.
Ingressos: R$ 20,00
Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1000

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*