CRÍTICA: O GRITO DAS MULHERES EM “MATA TEU PAI”

Kyra Piscitelli*, do Aplauso Brasil (Kyra@aplausobrasil.com.br)

CURITIBA – Depois de ver o espetáculo Mata Teu Pai trechos reverberam pela minha cabeça noite a dentro. Como mulher é indispensável que se veja. Fala a todas nós, em algum ponto, em algum momento. E claro, para os homens também. Em tempos de assédios, de retrocesso, mas de luta por igualdade (ainda), pelo direito de andar como se quer (ainda), de ser dona de si e de suas decisões (e sentimentos). A peça é uma antropofagia feminina necessária. Nossa consciência sabe o que somos, mas as velhas ideias assombram e vencem.

Grace Passô, que assina essa livre adaptação do mito de Medéia, de Eurípides, tem esse dom. De nos fazer sair pensando. De jogar palavras, ideias, sem pretensão conexão, mas sempre conectadas. Um jogo de luz e sombra que aparece na iluminação de Mata Teu Pai. Que cega e evidencia a sombra.

Mata Teu Pai foi escrita especialmente para a atriz Debora Lamm. Com direção de Inez Viana e direção de produção de Claudia Marques, esse é um projeto da Cia OmondÉ que será uma trilogia, concebida por Inez, que se propôs a fazê-la posteriormente na linguagem da Dança e da Ópera. Debora e Inez idealizaram e bancaram a ideia do próprio bolso.

Uma das partes mais interessantes do espetáculo é que ele assume uma característica local por onde passa. Senhoras formam um coro para acompanhar o solo do espetáculo. Sempre em cena, interagem com a atriz. A cada lugar que o espetáculo é realizado uma oficina é montada para selecionar e ensaiar com as senhoras. Aqui em Curitiba não foi diferente.

O Festival de Curitiba veio, neste 2017, com o mote de trazer o protagonismo às mulheres. Mata Teu Pai é exatamente isso. E não poderia ser tão oportuno. Casos famosos de assedio, de violência ganharam as manchetes. A campanhas por mulheres nas redes sociais e em todas as partes. O teatro tem por função ser a ágora da sociedade. A de se dar voz para o que as ruas gritam, debatem e dizem.

“Mata Teu Pai” fala do feminino e de questões da mulher. Foto: Annelize Tozetto

Passô, uma das vozes importantes da nossa dramaturgia, nos faz pensar sobre as escolhas de Medeia, a mulher que ao se sentir traída por “seu homem” mata até os próprios filhos. O que nos leva como mulher a certas escolhas? E se Medeia tivesse escolhido outros caminhos? Como a sociedade nos influencia? O que carregamos de sentimento pelas histórias que nos formam, o que devemos aceitar ou recusar?…. Mata Teu Pai é uma história que puxa – como poucos fazem bem – um clássico para pensar o hoje e com originalidade sem pieguices. E prepare-se: você sairá com mais perguntas do que com respostas. Assim é. Reverbere e reflita.

 “Mata Teu Pai” em Curitiba
A adaptação do mito Medeia questiona valores atuais, como o feminismo e o preconceito. O espetáculo, com direção é de Inez Viana, celebra os 20 anos de carreira da atriz Debora Lamm.
Datas: 5 e 6/4
Local: Teatro Sesc da Esquina
Endereço: Rua Visconde do Rio Branco, 969
Horário: 21h
Ingresso: R$ 70

O Festival de Curitiba termina neste domingo, 9. Acompanhe mais em: http://festivaldecuritiba.com.br/

Acompanhe por onde anda a peça em: http://www.omonde.art.br/

*Kyra Piscitelli viajou a convite do Festival de Curitiba.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!