CRÍTICA: “O IMPOSTOR GERAL”, OU DO QUE ESTAMOS RINDO?

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

O IMPOSTOR GERAL
O IMPOSTOR GERAL

SÃO PAULO – Núcleo Sem Querer de Tentativas Teatrais se apropria do bufão e do musical para criar uma versão família do clássico O Inspetor Geral.

Escrito na primeira metade do século XIX, O Inspetor Geral é um dos textos mais conhecidos de Nikolai Gogol, graças à sua mordaz crítica à corrupção e à falência da estrutura política de então.  Interessado no momento político brasileiro atual, o Núcleo Sem Querer de Tentativas Teatrais se apropriou da linha condutora da história de Gogol para elaborar o espetáculo O Impostor Geral, que segue temporada no Viga Espaço Cênico até 20 de dezembro.

O IMPOSTOR GERAL
O IMPOSTOR GERAL

A história permanece a mesma: o governo central mandará a uma cidadezinha afastada um inspetor geral, a fim de averiguar se tudo está de acordo com as diretrizes estabelecidas, para o desespero do prefeito corrupto e do chefe de departamento que vivem do desvio de verbas e da manipulação da máquina pública. Incertos sobre a identidade e a chegada do corregedor, as autoridades confundem-no com um golpista hospedado na estalagem local – que, naturalmente, tirará proveito do equívoco. A comédia de erros trata, então, da desonestidade em suas diversas variedades, desde o pequeno vigarista aos grandes criminosos, passando por todos aqueles que se beneficiam com a manutenção deste modelo de estrutura de poder (os familiares e aliados dos poderosos e todos os que gravitam ao redor deste núcleo). É não só um olhar ácido sobre o poder, mas também sobre o caráter humano, e sobre nossa predisposição natural para tirar proveito sempre que possível.

O desafio que o Núcleo Sem Querer se impõe é tentar universalizar a compreensão deste tema, tentando dialogar tanto com as crianças, seu foco principal, quanto com seus pais. Surgem daí os pontos fortes e fracos da montagem. A abordagem ao tema central, por exemplo: o Núcleo é inteligente o bastante para não idiotizar os personagens ou aliviar seus crimes, mantendo assim a força de sua crítica – e o uso do humor negro e do grotesco é uma das coisas mais interessantes no espetáculo.

O IMPOSTOR GERAL
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Contudo, o final vem com uma desnecessária moral da história, quase como se o coletivo não acreditasse na capacidade dos pequenos de entender o que está sendo discutido em cena, ou de seus pais e educadores, em abordar o tema além das paredes do teatro.  É um desperdício, afinal é muito mais gratificante quando a plateia se pega perguntando “por que eu estou rindo disso?” e entende sozinha qual é a crítica que está sendo feita, do que quando a moral da história entrega todas as respostas prontas.

O IMPOSTOR GERAL
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De modo geral, do meio para o final, o espetáculo sofre um pouco com a perda de ritmo, principalmente se comparado à sua excelente primeira metade. Os responsáveis por manter o jogo fluindo e o ritmo a contento, mesmo nos momentos mais modorrentos, são o diretor Juliano Barone, hábil ao desenhar cenas, brincar com o coro (outro ponto alto), propor imagens e inserir com sutileza as canções, sem que seja preciso parar a cena para que haja o momento musical; e o inspirado trio Felipe Pipo Belloni (o prefeito), Juliane Arguello (divertida como a esposa do prefeito e, sobretudo, como a filha do estalajadeiro – uma das melhores personagens e uma das melhores cenas) e Marcus Veríssimo (engraçado em todas as suas aparições, mas hilário como o dono da estalagem), brilhantes em meio a um bom elenco.

Assim, em meio a seus altos (as críticas sagazes e todos os flertes com o absurdo, o grotesco e o filme de terror, que mostram um tipo de comédia anárquica e inteligente tanto em conteúdo quanto em forma) e baixos (algumas cenas que demoram um pouco demais e quase ficam esgarçadas, a moral mastigada e eventuais perdas de ritmo), o Núcleo Sem Querer não apenas entrega um bom espetáculo, mas se apresenta como um coletivo que merece ser notado. Afinal, se em seu primeiro trabalho já apresenta um bom resultado, obras ainda melhores deverão surgir quando o grupo amadurecer. Nada melhor do que um núcleo que tem algo a dizer e muito potencial a cumprir.

Ficha Técnica
Baseado em O Inspetor Geral, de Nicolai Gogol.
Direção: Juliano Barone
Orientação de dramaturgia: Solange Dias
Direção Musical: Wagner Passos
Elenco: Alexandre Paes Leme, Felipe Pipo Belloni, Juliane Arguello, Laís Martins, Marcus Veríssimo, Monique Fraraccio e Priscilla Dieminger
Elenco de Apoio: Amanda Bargas, Carolina Batista, César Panuto, Juliana Stuchi, Mariana Mascarin e Marcelo Mascarin
Músicos: Ananda Fukuda e Pedro Augusto Monteiro

O IMPOSTOR GERAL
De 11 de outubro a 20 de dezembro. Sábados e domingos, às 15h.
R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia)
Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros.