CRÍTICA: O JOGO DO PODER EXPOSTO EM “HOLLYWOOD”

SÃO PAULO – A haste que se encaixa no final da Trilogia Mamet, da carioca Cia Teatro Epigenia, tem dimensões maiores que o universo machista, até vulgar, que a indústria cinematográfica norte-americana ostenta com os recentes relatos de assédio por poderosos produtores hollywoodianos. Hollywood, no original Speed-The-Plow (do dito popular americano Boa Sorte na Colheita) de David Mamet, merece uma leitura metafórica, como sugere o título original, em que se radiografa quais as armas utilizadas no jogo do poder e como, ao final, o apelo machista da sociedade dá seu apito final.

Ao que parece, a história não tem tanta importância no êxito do espetáculo, mas sim a forma como Mamet concebeu os diálogos – e como o talentoso diretor Gustavo Paso aproveita de maneira prodigiosa – em  que o ritmo frenético, as interrupções das falas de um personagem por outro, denotam a ansiedade daquele que busca a “melhor ideia, solução etc.” para, assim, merecer um lugar de destaque no “Jogo do Poder”. E, sábio, Mamet buscou como pano de fundo o meio oligárquico da indústria cinematográfica, com a qual tem íntima relação, para mergulhar no assunto.

A particularidade da literatura dramática é que seu expressivo êxito depende da coletivida que verticaliza um espetáculo. Nesse plural espectro, espera-se do diretor manter rédeas firmes e atenção inequívoca para gerenciar a estrutura completa da engrenagem espetacular. Como regente de Hollywood, Gustavo Paso mantém a estrutura calibrada, ou seja o cenário (também de Paso) representando a nova sala de Tony Miller, com os móveis empacotados, dão, ao mesmo tempo, a concretude de quem foi promovido e a sensação de descarte, caso não se sustente na “máquina-de-fazer-filmes-lucrativos”; os figurinos (Sonia Soares) dando o toque de sóbria elegância do universo dos negócios; a iluminação (Paulo César Medeiros) que transforma o espaço em distintos ambientes (como o escritório e o apartamento de Tony), sendo que as cores coloridas e um pouco opacas utilizadas no “apartamento” de Tony dão um ar de motel, como se um neon iluminasse a alcova decisiva para a vitória daquela etapa do jogo. Contudo, a montagem não atingiria a potência que tem não fosse a excelente harmonia entre cada um dos três atores: Luciana Fávero, Iuri Saraiva e Rubens Caribé.

O primeiro a entrar em cena é Rubens Caribé, o mais velho do trio de personagens, que interpreta Tony Miller, recém-promovido à Diretor de Produção, cargo que lhe dá algum poder de decisão. Esse dado é de suma relevância ao nos colocar em contato com as minúcias da composição de Caribé: uma postura ereta, voz segura, um confinamento ao próprio ego, uma exagerada autoconfiança que o faz cortar a fala dos outros personagens, como se estivesse atado aos próprios pensamentos.

Iuri Saraiva dosa, com exatidão, em sua criação de Daniel Fox, a ansiedade de quem quer que algum negócio promissor, de quem é o tutor, seja aceito e catapulte sua posição no ranking do poder, à adulação camuflada em elogios, lembretes de que é “amigo fiel, porque poderia procurar qualquer estúdio”, piadinhas machistas e grotescas, com a crueza da sinceridade quando percebe que seu objetivo está sob risco.

A elegância e a discrição de Karen, a secretária substituta vivida por Luciana Fávero, desperta a dubiedade evocada pela personagem. Miller é presa de sua própria vaidade ao ser “manipulado por uma noite de prazer” com Karen, como aponta Fox? Não seria Fox quem deseja manipular Miller? Parece que a chave desse enigma está na sobriedade sincera com que Fávero desenhou Karen. Sua sinceridade carrega a “confissão” de quem utilizou métodos bastante peculiares para alcançar seu objetivo e, por outro lado, nos deixa em dúvida se ela acreditava no projeto ou o promoveu por mera disputa do poder.

Enfim, o maior mérito de Hollywood é permitir tal pluralidade de leituras por parte dos espectadores.

Ficha técnica

Direção: Gustavo Paso

Texto: David Mamet

Tradução: Gustavo Paso

Cenário: Gustavo Paso

Figurino: Sônia Soares

Trilha sonora: André Poyart

Produção nacional: Luciana Fávero

Produção Local: Selene Marinho

Assistente de Produção: Marcela Horta

Operação de Luz e Som: Dida Genofre

Contrarregra: Sérgio Sasso

Realização: Paso D’arte e Cia Teatro Epigenia

Assessoria de Imprensa – Duetto Comunicação

Teatro SESC Pinheiros – R. Paes Leme, 195 – Pinheiros, São Paulo – SP

Telefone: (11) 3095-9400

Lotação: 98 lugares

Duração: 75 minutos

Classificação: 14 anos

Gênero: comédia

Temporada: De 11 de janeiro a 10 de fevereiro – De quinta a sábado – sempre às 20:30

Valores: R$ 25,00 (inteira) R$ 12,50 (meia) e R$ 7,50 para credenciados do SESC

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.