Crítica: O mundo na Praça Roosevelt

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SÃO PAULO – Se em O Mundo dos Baldios Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez flertavam com o universo dos deslocados sociais, em Mississipi eles verticalizam o mergulho no mundo marginal: especificamente, e com ênfase, nos moradores de rua do entorno da Praça Roosevelt. Em cartaz às sextas e sábados, 21h, no Espaço dos Satyros, Mississipi apresenta uma diversidade humana tão ampla que transforma o microcosmo da praça em questão num universo urbano geograficamente ilimitado.

Com utilização de monólogos em que os personagens relatam seus passados, agem no presente, comentam fatos marcantes de suas personalidades (como narradores de uma rubrica bastante poética), falam sobre suas ações futuras, entre outros recursos que fazem da carpintaria dramatúrgica de Mississipi bastante especial, embora não concordemos com todas as opções da encenação – também assinada por Rodolfo García Vázquez –, e o faz um dos mais instigantes espetáculos da temporada.

O coro dos condôminos, ornados com máscaras bizarras (que fazem referência à ausência de ar saudável nas metrópoles), reunidos para a prestação de contas e avisos sobre as novas regulamentações internas, é uma das cenas de conjunto mais divertidas e plasticamente belas do espetáculo. O síndico, interpretado pelo ator Gustavo Ferreira numa deliciosa leitura com dicção estudadamente afetada e gestualidade idem, dá o tônus do pedantismo e hipocrisia tão peculiar à nossa classe média.

As cenas coletivas com os moradores de rua são tão orgânicas que logo identificamos a familiaridade dos autores com os personagens retratados: uma autêntica rapsódia de caracteres extravagantes, como podemos esbarrar numa madrugada na Praça (atesto por experiência própria). Assim, por mais singelas que algumas cenas possam parecer – como quando Afílio (Felipe Moretti) pede esmola a um transeunte que o ignora e é amaldiçoado por ele até que, pressionado pela culpa e não por um sentimento de compaixão, volta numa cena posterior e o enche de esmola como que para limpar-se da culpa. A cena que se segue a essa ”pseudo-caridade” simboliza o valor real do dinheiro para esses sujeitos: Afílio, que considera ser namorado de Princesa (Marcia Dailyn), oferece a ela boa parte da quantia recebida, entretanto rasga o dinheiro recebido ao perceber que a doação está vinculada ao laço afetivo entre os dois, o qual ela afirma não mais existir, como evidenciando valer mais a liberdade (o que nos força a refletir sobre nossos próprios valores). Ou as narrativas de Mariana (Sabrina Denobile), uma moradora de um bom apartamento da Praça, que afoga sua solidão e inadequação consigo mesma com encontros fortuitos regados à sexo casual.

Entre a fauna de sujeitos marginalizados, no sentido de “estar à margem” da classe média e da elite”, estão Adriel e Camino que, em comum, são suspeitos pelo assassinato de Raul – um rico e bem-sucedido publicitário cujo fetiche é o cheiro daqueles moradores de rua –, além dos traumas passados que forjaram suas personalidades futuras: Camino deixou sua família por culpa e dor (a cena em que Camino, com interpretação pungente de Eduardo Chagas, narra os passos até chegar na Praça é de densa emoção), ele fica indignado quando o publicitário o acaricia sexualmente, chegando a desejar sua morte (a indignação não tem a ver com o preconceito sexual, mas com o fato de Camino sentir-se invadido por ser morador de rua) ; já Adriel, vítima de um padre pedófilo, é o anjo caído, aquele que responde de maneira brusca a qualquer respingo de afetividade, Robson Catalunha confere ao personagem interpretação com exatidão e impressionante lucidez em suas cortantes respostas, herança do ressentimento armazenado em sua alma. A caracterização de Fábio Penna atinge diversas camadas emocionais, dando um colorido bastante peculiar à Raul: do fetichista sexual ao frágil solitário que “é convidado para todas as festas badaladas” e, mesmo assim, volta sozinho para sua cobertura (retrato bastante identificável num universo de relações líquidas como o que vivemos).

Imara (Júlia Bobrow em excelente desempenho) com suas teorias astrofísicas e Vangloria (vivida com vigor e talento por Ju Alonso) com a “filosofia” de “seguir as placas de trânsito” para alcançar paz na vida, dão pistas de personagens que “criam suas próprias lógicas” para suportar o cotidiano quase sempre azedo.

Ingrid Soares e Júnior Mazine, respectivamente intérpretes de Amora – que enfrenta o vício do crack – e Thomaz – um lutador covarde – não tem presença marcante embora desempenhem com harmonia com o conjunto.

O fantasma da depressão, nosso “mal-do-século”, é retratado por Maresias, personagem vivido com entrega visceral por Nicole Puzzi, cuja cena do suicídio é uma bela figura da inventividade, teatralidade e verdade cênica a que se propõe a 0encenação de Vázquez.

 

Max, personagem vivido por Henrique Mello – que consegue exalar com apenas um olhar todo o mau-cheiro de sua alma –, representa um tipo bastante comum na urbe de hoje: o higienista que se crê acima dos homens, aquele que se acha no direito e no dever de “limpar” a raça humana de indivíduos classificados por eles como dejetos. Isso que lembra grandes extermínios éticos e sociais, agora é defendido por líderes que vestem, com descarada hipocrisia, o estandarte de Deus.

Ivam Cabral, intérprete do personagem-título de Mississipi, empresta doçura, generosidade – que lhe são típicos –, além do talento e emoção elevados à máxima potência à sua criação, alcançando uma verdade tão absoluta que o ator se torna uma espécie de performer (não fosse a construção física e vocal) no sentido em que transmuta-se ao personagem. Em uma das múltiplas camadas alcançadas por Cabral, vislumbramos – sobretudo quando Mississipi está com sua caderneta– uma espécie de Carolina Maria de Jesus anotando coisas que fazem parte de seu cotidiano, como se Ivam, um dos autores da peça, recorresse à suas anotações e memória afetiva para contribuir na escrita de Mississipi, o que corrobora ainda mais a impressão de uma interpretação performativa. A verdade cênica expressa na cena em que Mississipi narra sua relação com Cosme é de levar o espectador mais sensível às lágrimas.

O desfecho da trama é um nefasto retrato social do Brasil atual em que em caso de dúvida ou quando as provas são circunstancias o veredito está pronto e, antes mesmo que ele seja anunciado, o réu já carrega a faixa da culpa alardeada pelas redes sociais.

Ficha técnica:

Elenco: Ivam Cabral, Nicole Puzzi, Eduardo Chagas, Gustavo Ferreira, Henrique Mello, Sabrina Denobile, Fabio Penna, Julia Bobrow, Robson Catalunha, Felipe Moretti, Marcia Dailyn , Ju Alonso, Junior Mazine e Ingrid Soares

Texto: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Direção: Rodolfo García Vázquez

Assistente de Direção: Silvio Eduardo

Iluminação e Operação de Luz: Flavio Duarte

Cenografia: Murillo Carraro

Design de Aparência: Adriana Vaz e Rogério Romualdo

Trilha Sonora e Dramaturgia Sonora: Marcello Amalfi

Preparação Vocal: Dan Ricca e Isis Nascimento

Vozes em Off: Thiago Mendonça e Marcelo Thomaz

Vídeos e Programação Visual: Henrique Mello

Texto do Programa: Marcio Aquiles

Assessoria de Imprensa: Robson Catalunha e Diego Ribeiro

Fotografias: Andre Stefano

Criação e Confecção de Máscaras: Eduardo Chagas

Confecção de Figurinos: Cleide Miwa 

Operação de Som: Dennys Leite

Produção Executiva: Silvio Eduardo e Diego Ribeiro

Assistência de Produção: Maiara Cicutt

Administração: Israel Silva

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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