CRÍTICA: O PESO DA PALAVRA EM “FLOEMA”

Fernando Pivotto para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

floemaSÃO PAULO – Com forte caráter performático, espetáculo usa da dança, das artes visuais e do teatro para apresentar adaptação de Fluxo-Floema, de Hilda Hilst. Na montagem, que segue em cartaz no Viga Espaço Cênico até 29/06, um homem busca desesperadamente encontrar-se com um deus que acalme suas angústias.

É difícil assistir a Floema e não pensar em Osmo, investida que Donizetti Mazonas e Susan Damasceno – ele, como ator e ela, diretora – fizeram no universo de Hilda Hilst em 2014.

Além da similaridade óbvia – Floema também é baseado em uma das obras de Hilst –, os espetáculos têm em comum outras características importantes: o corpo dos atores em situações de desconforto, e a palavra como foco central do espetáculo. Se em Osmo, Mazonas ficava confinado num tanque de água que limitava seus movimentos, aqui os atores dão o texto presos em cordas, cobertos de argila, engatinhando, se engalfinhando…

A estratégia é interessante, e reforça o caráter visual do espetáculo. As imagens são belas (o único ponto fora da curva é uma desnecessária alusão à Pietà de Michelangelo, um clichê que poderia ser evitado), e é instigante ver o corpo dos atores em choque, em convulsão, externalizando o conflito dos personagens.  É instigante ver Couto (Flávia Couto, entregue ao espetáculo) nesse corpo exausto, quase histérico, porque nos informa que sua busca pelo deus Haydum não só é infrutífera, como é nociva.

Em oposição à situação desequilibrada em que os corpos se encontram, a palavra aparece nítida, cristalina, bem articulada e num ritmo consideravelmente estudado, controlado. Faz sentido querer colocar a narrativa e o verbo em primeiro plano, visto que o espetáculo nasceu de uma obra literária, e muito de seu charme são as imagens e atmosferas que surgem das palavras, mas a escolha está longe de ser impecável.

Em sua fala estudada e técnica, os atores às vezes soam artificiais, mecânicos; em outras horas, a torrente verborrágica é tão intensa que os ouvidos da plateia são anestesiados. Claro que é um prazer ouvir alguém declamar Hilda Hilst, mas faria bem ao espetáculo não ser tão respeitoso à sua escrita e fundir a palavra às outras possibilidades que o palco apresenta.

É lindo ver Maurício Coronado coberto de argila enquanto as luzes se apagam, assim como é lindo ver Couto suada, arfando e balançando-se na corda que fica no centro da área cênica.  É lindo especialmente porque diz muito sobre os personagens e o mundo apresentados a nós de uma maneira menos direta, mais subjetiva, mais cheia de possibilidades. Estes pequenos momentos de deleite visual fazem bem à montagem, e são um respiro muito bem-vindo no meio de tanta declamação.

Osmo possuía essas mesmas características marcantes, então é fácil ver que Mazonas, força criativa envolvida em ambos os processos (aqui, apresenta-se como diretor), segue uma pesquisa contínua pelo universo de Hilst. Entretanto, talvez lhe faça bem procurar outras chaves caso deseje continuar investigando a obra da autora. Ademais, Floema é um espetáculo bem resolvido, com algumas propostas visuais realmente interessantes. E Hilda Hilst sempre merece ser ouvida.

Ficha técnica

Texto: Hilda Hilst
Adaptação e direção: Donizeti Mazonas
Elenco: Flavia Couto e Maurício Coronado
Cenografia: Suiá Burger Ferlauto
Figurinos: Donizeti Mazonas
Música original: Gregory Slivar

Serviço
Até 29/06. De segunda a quarta, às 21h
Viga Espaço Cênico, sala Piscina
Rua Capote Valente, 1323. Sumaré
Ingressos: R$ 20,00 (meia) e R$ 40,00