CRÍTICA: “O SANTO DIALÉTICO”, OU O ELOGIO À RAIZ

© Joao Caldas Fº
© Joao Caldas Fº

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Espetáculo do Teatro do Incêndio investiga o entrechoque cultural e a noção de pertencimento na sociedade contemporânea. A temporada segue até dia 04 de dezembro na sede do grupo.

Segundo o dicionário, religião, substantivo feminino, é o sistema de doutrinas, crenças e práticas rituais próprias de um grupo social, estabelecido segundo uma determinada concepção de divindade e da sua relação com o homem; fé, culto.

Embora não haja consenso, alguns etimólogos defendem a ideia de que a palavra “religião” deriva de “religare”, ou “voltar a unir” o plano terreno ao plano celeste. Da mesma forma, o diretor e autor Marcelo Marcus Fonseca estabelece a religião e seu poder de construir, apagar ou trasmutar identidades como eixo central de seu espetáculo, O Santo Dialético.

Numa tapeçaria tecida ao longo de cerca de três horas, Fonseca e os atores do Teatro do Incêndio narram seis histórias que se entrecruzam, a fim de investigar o multiculturalismo brasileiro, e a necessidade do indivíduo de se descobrir e de pertencer a algum lugar. No coral composto pela companhia, temos o índio tirado de sua aldeia quando criança por padres e que agora tem dúvidas quanto ao seminário; a moradora de rua que segue um chamado irrecusável; o casal evangélico que lida com a infertilidade; e o publicitário que se descobre transexual ao mesmo tempo em que sua esposa enfrenta um câncer severo – não por coincidência, estes dois personagens, cuja problemática não envolve a religião, têm seus arcos resolvidos apressadamente, antes do fim do primeiro ato.

Tratando de temas tão delicados quanto a intolerância religiosa, o genocídio indígena, o preconceito, a insanidade e a disforia de gênero, O Santo Dialético consegue ser surpreendentemente otimista: nenhum personagem é essencialmente mal, todos são apenas ignorantes. Não existem erros que não sirvam como aprendizado, nem atitudes que não sejam redimidas. É como se a origem do caos e da angústica fosse justamente a perda da origem, da história e do lar, e uma vez que esta ancestralidade é reconquistada, a harmonia é reestabelecida. Assim, o seminarista que duvidava de sua vocação aplaca suas dúvidas quando abraça suas origens indígenas, a fiel reforça sua fé ao perceber o sincretismo presente na imagem de Nossa Senhora Aparecida e o casal reencontra o equilíbrio individual ao honrar sua cultura africana.

Embora a tentativa de dar espaço e visibilidade a diversas heranças culturais em um único espetáculo pareça ousada – como dar conta de cinco séculos de entrechoque cultural em 180 minutos sem parecer raso? –, o Teatro do Incêndio sai-se geralmente bem, sobretudo graças ao elenco, que defende com honestidade seus personagens. O coletivo mostra-se maduro ao defender um ponto de vista sem necessariamente vilanizar ou caricaturizar ninguém. Muito mais do que apontar o dedo ou culpabilizar, o grupo parece interessado em propor a conversa, em celebrar o intercâmbio de saberes, tradições e ritos. É um jeito eficaz de dissolver os preconceitos ou estranhamentos que o espectador possa carregar consigo durante a sessão, além de ser uma forma respeitosa de tratar o público, evitando que o espetáculo seja um tipo de catequese.

Se a proposta do espetáculo é pertinente em seu discurso, O Santo Dialético alcança estado de graça quando se propõe a ritualizar o espaço. Existe certo poder difícil de definir, mas impossível de negar, no final do primeiro ato, quando o elenco dança uma coreografia que tenta contemplar ritos de diversas matrizes. Longa sem ser cansativa, a cena é poderosa justamente por romper o verniz da atuação: os atores de fato dançam, de fato suam, de fato se cansam e de fato estão felizes – e isso atinge o espectador, da mesma forma que um rito acessa tanto aquele que o pratica, quanto aquele que o observa. Outros procedimentos, como o uso de cantos, de palavras e da queima de ervas, mantém o clima de sacralidade e a certeza de que se trata de um espetáculo feito, em certa medida, para o divino.

Da mesma forma que Nietzsche diz “torna-te quem tu és”, o Teatro do Incêndio convida à religação e à descoberta da ancestralidade como forma de apaziguar o caos intra e interpessoal contemporâneo, e apresenta um espetáculo ciente do seu potencial transformador – transcendental, como os ritos devem ser.

O SANTO DIALÉTICO
Texto e direção geral: Marcelo Marcus Fonseca
Direção musical, composições originais e música ao vivo: Bisdré Santos
Atores: Gabriela Morato, Francisco Silva, Elena Vago, Valcrez Siqueira, André Souza, Victor Dallmann, Pamella Carmo, Juan Velasquez, Thiago Molfi, Anderson Negreiro e Lígia Souto
Figurino: Gabriela Morato
Iluminação: Helder Parra e Marcelo Marcus Fonseca
Preparação vocal: Alessandra Krauss Zalaf
Assistência de direção: Sérgio Ricardo
Assistência de produção: Victor Castro
Adereços: Fabrízio Casanova
Trilha sonora mecânica: Marcelo Marcus Fonseca e Bisdré Santos
Coreografia: Gabriela Morato
Operação de luz: Helder Parra
Operação de som: Victor Castro
Responsável técnico: Antonio Rodrigues
Fotos: Giulia Martins e João Caldas
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena
Realização e produção: Cia. Teatro do Incêndio

Serviço
Até 04/12. Sábados, às 20h, e domingos, às 19h.
Ingresso: Pague o quanto puder. Jantar: R$ 20,00 (opcional).
Teatro do Incêndio. Rua Treze de Maio, 53, Bela Vista.

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