PORTO ALEGRE – Desde 2003 Miguel Falabella não criava um texto dramático. Com Síndromes –Loucos somos nós escrito no ano supracitado, Miguel encerrou uma fértil parceria com Maria Carmem Barbosa que legou ao teatro brasileiro joias como Louro, Alto, Solteiro Procura…. e Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe. Seu retorno à dramaturgia não podia ser melhor do que o primoroso O Som e a Sílaba, que estreou em 2017 e que, atrasadamente, consegui assistir na semana passada.

O título do espetáculo presta tributo a uma das obsessões literárias do artista, a poeta norte-americana Emily Dickinson. Em 1984, quando dirigiu o monólogo Emily com Beatriz Segall, Falabella alcançou sua consagração como encenador.

A história de O Som e a Sílaba mostra o encontro de Sarah Leighton, uma portadora do diagnóstico de autismo altamente funcional com a professora de canto, Leonor Delis. A partir deste mote o público é presenteado com os excelentes diálogos engendrados por Miguel, que retoma frases que se tornaram célebres em sua obra como “Os jacarés tem razão, eles comem a própria cria”, do filme Mildred Pierce, dirigido por Michael Curtiz em 1945. E também “Deus é um grande diretor de ópera, mas escolhe mal o elenco”, criação de Falabella para um dos seus maiores sucessos teatrais, Sereias da Zona Sul.

E seus belos diálogos estão a serviço de duas grandes atrizes. Alessandra Maestrini e Mirna Rubim brilham respectivamente, nos papéis de Sarah e Leonor. A primeira consegue representar sem recorrer à arma fácil da caricatura, algo que é sempre perigoso na criação de personagens com transtornos psíquicos. E a segunda mostra a transição da frieza para o afeto de sua Leonor. E, last but not least, simplesmente entram em estado de ascese quando cantam os números operísticos do espetáculo como Vissi D’Arte da ópera Tosca e, principalmente, em Les Lianes Na Fleurs da ópera Lakmé. Também merece destaque a elegância dos figurinos assinados por Ligia Rocha e Marco Pacheco.Atualmente, O Som e a Sílaba está em turnê pelo Brasil. Um espetáculo arrebatador que merece ser visto e (re) visto.

Articulista e crítico de teatro

Luís Francisco Wasilewski, do Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)