CRÍTICA: ODE À CAFONICE ENFRAQUECE SENTIDO DE “L, O MUSICAL”

SÃO PAULO – Incensado pela crítica carioca e brasiliense, infelizmente L, O Musical, concebido e dirigido por Sérgio Maggio, desagradou expressiva parcela dos críticos que conferiram ontem a pré-estreia do espetáculo – no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – ao apresentar uma trama desconexa, repleta de chavões em seus diálogos, um mau gosto visual – do cenário ao figurino – e um desfecho óbvio. Enfim, o que era pra ser uma valorização do amor livre, o empoderamento do universo feminino e lésbico se desfalece em uma espécie de “Ode à Cafonice”.

O início do espetáculo – iniciado pela atriz-criadora Luiza Guimarães, no papel de uma espécie de “diretora de cena”, com empática e segura performance ao lidar com a plateia que, naquela noite, funcionará como “figuração” do último capítulo da novela escrita por Ester Rios (Eloísa Lucinda) –, cria uma expectativa que ao levantar o pano é frustrada.

O fato da novela retratar uma trama insólita para os padrões televisivos – um triangulo amoroso entre lésbicas -, cujo estrondoso sucesso faz com que a autora seja convidada para escrever a próxima novela, não alcança conexão em sua sequência. Como se essa primeira cena se encerasse aí, tornando toda sequência da peça uma teia repleta de situações previsíveis, e o pior, previsíveis num universo heteronormativo ortodoxo, sem apontamentos para outras formas de relações, como o triângulo amoroso lésbico

Uma YouTuber, interpretada pela hilária Luiza Guimarães, que aparece nos entremeios das cenas dando um toque de comicidade reflexiva é um momento de descontração para o texto amarrado em confusão kitsch.

Encabeçado por Elisa Lucinda, Ellen Oléria e Renata Celidonio e complementado por Tainá Baldez e Gabriela Correa, além da já citada Luiza Guimarães, o elenco não tem coesão. Elisa Lucinda dá um tom um pouco exagerado à Ester – com movimentações de caras e bocas que lembram um dramalhão – mas, à despeito do texto irregular, consegue extrair momentos engraçados; Ellen Oléria, sem sombra de dúvidas, é uma das grandes vozes femininas do Brasil, quando ela canta, encanta, entretanto ainda falta muito chão para que ela se torne atriz.

O cenário, uma verdadeira Ode à cafonice, só serve à primeira cena, já que representa uma espécie de bolo de noiva com bustos de manequim circundando a parte de traseira do mesmo, sem nenhuma função aparente. Os figurinos, como vestidos de madrinha de casamento, apesar da continuidade cafona, dialoga com a cenografia, embora não esteja claro a conexão dos mesmos com a história das personagens. A iluminação tem momentos de rara beleza, talvez o excesso de cores torne mais o que deveria ser menos.

Enfim, acho que o tema amor, sobretudo entre pessoas do mesmo sexo, seja necessário e pertinente a se falar na atual conjuntura, onde cada vez mais setores reacionários ganham força – vide os resultados das pesquisas que apontam Bolsonaro como líder, mesmo ele tendo um discurso homofóbico e machista – ,mas quando se fala em amor fora do usual é preciso, também, cuidar para não classifica-lo num modelo heteronormativo (casamento, divisão de quem é o que, entre outros).

ção: Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada
Assessoria de Imprensa: 
Pombo Correio

SERVIÇO

“L, o Musical”, com direção e roteiro de Sérgio Maggio

Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – Rua Álvares Penteado, 112 – Centro*

Temporada: 6 de janeiro a 26 de fevereiro

Às sextas, aos sábados e às segundas-feiras, às 20h, e aos domingos, às 19h.

Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia-entrada), com venda pelo site Eventim.com.br

Duração: 110 minutos

Classificação: 14 anos

Lotação: 140 lugares

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.