Crítica: Os crimes de “Sunset Boulevard, O Musical”

SÃO PAULO – Um crime é mais complexo que o ato de ferir alguém. Mesmo porque não se mata a alguém apenas com uma facada, um copo de veneno, ou um tiro; antes: ferir alguém assim pode ser, tão somente, um ato impulsivo. Esse é o tratamento artesanal da concepção de Sunset Boulevard, O Musical, assinada por Fred Hanson: não é apenas o crime concreto que é focado na montagem em cartaz no Teatro Santander, mas crimes imateriais como cultivar o sucesso como se ele fosse um “bem” imortal.

O espetáculo inicia com o som de um tiro e um corpo masculino caído na piscina, a imprensa local, ávida por escândalos, invade o pátio externo da mansão de Norma Desmond e é aí que toma a cena o roteirista Joe Gillis, o próprio defunto, para narrar os fatos como realmente ocorreram, antes de virarem ficção nas páginas de fofoca. Afogado em dívidas e desiludido com a carreira, Gillis, ao fugir de cobradores que vão confiscar seu veículo, estaciona no pátio da mansão de Desmond dando um mergulho que será fatal. Confundido com o responsável pelo serviço funerário aguardado para retirar o macaco de Norma, Joe Gillis revela o imbróglio: ele é um roteirista que estacionou o carro quebrado na garagem dela.

A princípio, é expulso do local pela arrogante atriz (Norma Desmond foi uma grande diva do cinema mudo, mas perdeu seu reinado após o início do cinema falado; por não aceitar a transição da linguagem cinematográfica caiu no ostracismo, vivendo reclusa em sua mansão na Sunset Boulevard, um dos mais famosos endereços de Hollywood). Gillis a reconhece e pergunta se ela não era a grande estrela do cinema mudo, sendo corrigido por ela: “eu sou a grande estrela, os filmes é que ficaram menores”.

Simpatizando com Gillis, ou simplesmente satisfeita por ser reconhecida por alguém real, Norma tem um plano: escreveu um roteiro para o seu retorno às telas de cinema e Gillis, tratando-se de um roteirista, poderá formatá-lo (sob sua supervisão) para a linguagem cinematográfica. Ela afirma, também, que o filme será dirigido por Cecil DeMills, no estúdio Paramount. O escritor que acaba de ter seu roteiro recusado pelo estúdio, considera o roteiro muito ruim e Desmond uma louca. A trama escapa de qualquer maniqueísmo: Gillis recusa a oferta, mas acaba cedendo à insistência da atriz. Se por um lado a possível porta de entrada para a fama parece ser um sedutor motivo para que o roteirista aceite, por outro a precária situação financeira em que Gillis se encontra, determina sua palavra final e ele aceita. Embora tudo leve a crer que Gillis aja por interesse ou quaisquer outros desvios de caráter, a construção de Julio Assad está longe de cair no maniqueísmo e dá ao personagem dose exata de empatia, o que confere à linha adotada por Hanson na montagem: a da dialética dos caracteres dos personagens.

O fiel mordomo Max Von Mayerling, papel desempenhado pelo ator Daniel Boaventura, indexa ao personagem toda aura misteriosa típica do film noir, tornando assim, o mordomo o principal suspeito, além de culpado por manter Norma presa num zoológico de vidro.

Uma das características de Sunset Boulevard, O Musical, assinado por Andrew Lloyd Webber (musicas), Christopher Hanpton e Dom Black (letras), baseado no longa metragem homônimo de Billy Wilder é a organicidade entre música e diálogos: Joe Gillis assume a narrativa de maneira presencial, ou seja, suas canções se confundem com seu dialogo coloquial como se ele fosse, ao mesmo tempo, narrador e intérprete de sua própria história. Seguem essa trajetória em que o texto e a canção são uma continuidade do outro no espetáculo.

A concepção de Fred Hanson atinge o grau elevado de qualidade ao apostar num elenco (Marisa Orth, Daniel Boaventura, Julio Assad, Lia Canineu, Bruno Sigrist, Sérgio Rufino, Carlos Leça, Arízio Magalhães, entre outros) que une excelência na interpretação e excelência no canto, além de uma equipe igualmente talentosa: Carlos Bauzys (direção musical), Katia Barros (coreografia e direção de movimento), Matt Kinley (cenário), Fause Haten (figurino), Cory Pattak (design de luz), Terry Scruby, Mariana Elisabetsky e Victor Mühlethaler (versão brasileira) etc. Presente, também, em sua direção estão: o dinamismo cênico (principalmente nas cenas do estúdio Paramount, em que a simultaneidade alcança a máxima potência), o foco nas ambiguidades dos desejos dos personagens, a utilização da cenografia e o desenho do espetáculo, propriamente dito.

Blanche, Jane Hudson, Salomé ou Norma?

Não é à toa que Norma Desmond seja um personagem tão atraente para as atrizes, apesar do dantesco trabalho em desempenhá-la, o fascínio são as camadas que a forjam: ela é Blanche, é Salomé, é Jane Hudson, ela é uma prosaica adolescente que perdeu uma centena de seus milhares de seguidores do instagram e quantas mais mulheres couberem no talento  de quem a interpreta. E na versão brasileira, a atriz Marisa Orth revela um trabalho minucioso com talento suficiente para dar conta da potente alma de Norma Desmond; surpreende seja por sua competente e elevada desenvoltura dramática, lugar em que não estamos habituados a vê-la, seja pelo excepcional domínio vocal a dedilhar o texto, tanto o prosaico como a canção.

Assim como a protagonista de Um Bonde Chamado Desejo (Blanche Dubois), Norma Desmond criou sua própria realidade e não permite que o mundo real seja descortinado a sua frente; e Marisa Orth alcança delicadas nuanças da alma de Desmond, seja pelo seu olhar carregado de tristeza melancólica, seja pelo empenho em menosprezar o outro para manter-se em um pedestal e, assim como a personagem-título de O Que Terá Acontecido à Baby Jane? (Jane Hudon) passa a acreditar que o estilo de arte que a consagrou ainda tem público e está ansioso por sua volta. Apaixonada por Joe Gillis, que a rejeita, torna-se Salomé, a personagem que acredita ser perfeita para interpretar em seu retorno, e pede à Herodes (Max?) a cabeça de São João Batista (Joe Gillis).

É claro que para pensarmos dessa maneira em que muitos caracteres ocupam um mesmo personagem é necessário um intérprete consciente que, para acionar todos os elementos que forjam seu talento, realize um garimpo de emoções e técnicas para verticalizar uma personagem do quilate de Norma Desmond, e esta intérprete é Marisa Orth.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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