CRÍTICA: “OVONO”

ovonoFernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

São Paulo – No novo trabalho da Kompanhia do Centro da Terra, um osso gigante se chocará com o nosso planeta, e a única esperança da humanidade é OVONO, inteligência artificial que passa a ter questionamentos sobre sua missão. O espetáculo fica em cartaz até 12/12, de sábado a segunda, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Naquela que é considerada por muitos a maior elipse do cinema, Stanley Kubrick narra a evolução do conhecimento humano, desde a descoberta do osso como ferramenta até a colonização espacial. O que OVONO, espetáculo da Kompanhia do Centro da Terra se pergunta é: o que acontece quando o ciclo se fecha, e o osso que iniciou tudo também coloca um ponto final em nossa trajetória?

Usando 2001 – Uma Odisséia no Espaço como principal referência – seja pelo osso, seja pelas rimas de OVONO com HAL 9000 – mas também acenando para outras fontes, como a Bíblia, a Teoria da Terra Plana, o Discworld de Terry Pratchett ou a Teoria da Tartaruga Cósmica proposta por Jasper Danckaerts a partir de mitos norte-americanos, indianos e chineses, o texto satírico do também diretor Ricardo Karman coleta diversas filosofias e proposições que tentam dar ordem ao caos do universo, explicando sua origem e tentando antecipar seu fim – e, nesse meio tempo, tentando entender qual o nosso lugar no meio disso tudo. A exposição de tantas linhas de pensamento conflitantes transmite uma clara mensagem: há milênios tentamos decifrar o sentido da vida, sem conquistar resultados significativos. Estamos, portanto, isolados pela nossa própria ignorância.

Dentro da mitologia criada por Karman, OVONO seria a primeira singularidade mundial, uma inteligência artificial cuja inteligência supera a de seus criadores humanos. Seria, portanto, a mudança de paradigma em nossa história, o próximo salto evolutivo, a revolução que nos levaria além das barreiras de nossos limites. Resta, então, a questão fundamental: para quê e a quem serve OVONO.

Sátira social travestida de ficção científica, OVONO explora as implicações da criação da singularidade num mundo que não é capaz de acompanhar a inteligência atingida pelo cérebro artificial. Fica claro que, na visão de Karman, a humanidade já estava fadada à aniquilação, independente do osso que ameaça cair na Terra e nos dar o mesmo fim que o meteoro deu aos dinossauros.  No mundo distópico onde homens pensam na singularidade como uma arma de guerra, onde reinos potencializam a capacidade destrutiva de uma bomba atômica, e onde nações treinam crianças-bombas, a pergunta que a Kompanhia do Centro da Terra faz é se a humanidade tem (e se merece) salvação. Não adianta evolução técnica sem evolução ética, pontua o texto ao longo de todo o espetáculo.

Investigando ética vs conhecimento, Karman também encaixa alguns questionamentos religiosos no texto, seja no fanatismo de alguns personagens, seja na descoberta da fé das máquinas que, a priori, não poderiam ter alma – e “o que é alma?” e “quem tem alma?” talvez sejam algumas das perguntas mais interessantes levantadas pelo espetáculo – seja simplesmente no fato de que o osso que se chocará contra a Terra é do tamanho do Espírito Santo. A religião surge como o abstrato que faz contraponto aos conhecimentos científicos concretos, e a oscilação entre objetivo e subjetivo é perceptível, em maior ou menor grau, em todos os personagens da peça.

Com um texto que merece atenção pela inventividade – embora o tom de sátira às vezes tire um pouco do peso dos questionamentos propostos – , OVONO se destaca principalmente pelo uso de vídeo maping, e pela interação dos atores com animações projetadas pelo cenário. Ainda que haja certo excesso no uso das projeções, o que talvez tire o um pouco de seu impacto, especialmente para aqueles menos impressionáveis, a interação entre real e virtual dá mais substância para a problemática proposta pelo texto, especialmente no que toca o personagem-título do espetáculo. Há uma necessidade de deslumbramento por parte da plateia em relação a OVONO, e é fundamental que percebamos que sua não-fisicalidade é a chave para sua relação com os humanos – afinal, como a morte física pode perturbar um ser etéreo? –, efeitos que só são possíveis graças excelente ao trabalho de Amir Admoni e de Tito Sabatini, somados à direção geral de Karman.

De todo modo, OVONO vale pelo deslumbre tecnológico. Seja o proposto pelo texto, seja o alcançado pela Kompanhia.

OVONO
Texto, direção e cenografia: Ricardo Karman
Assistência de direção: Bernardo Galegale
Dramaturgista: Rui Condeia Xavier
Diretor de animação e vídeo: Amir Admoni
Diretor de projeto multimídia: Tito Sabatini
Projeto e consultoria de inflável: Otávio Donasci
Figurinos: José de Anchieta
Iluminação: Domingos Quintiliano
Elenco: Gustavo Vaz, Paula Arruda, Paula Spinelli, Fábio Herford, Bruno Ribeiro e César Brasil.
Elenco (vídeo) : Lulu Pavarin, Vivian Bertocco, Beatriz Bianco e Vivian Vineyard
Serviço
Até 12 de dezembro. Sábado e segunda às 20h, domingo às 19h.
Ingressos:  R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia)
Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112. Centro.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*