CRÍTICA: “PAGLIACCI”, UMA DECLARAÇÃO DE AMOR À PALHAÇARIA

SÃO PAULO – Construído a partir da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, novo espetáculo do LaMínima dissolve a carga trágica do original e tece um sensível elogio às artes circenses. A temporada segue no Teatro SESI-SP, no Centro Cultural FIESP de quinta a domingo, até 2 de julho.

É uma coisa óbvia, que a maioria de nós já sabe, mas que é sempre bom reforçar: nas artes, poucas coisas são mais difíceis do que a simplicidade. Não me refiro aqui à tosquice ou à mediocridade deliberada, mas ao seu oposto, a um refinamento técnico tão elevado e a um estofo poético tão sensível que, combinados, conseguem organizar a criação de um espetáculo coeso, bem organizado e executado, arrematado por uma simplicidade e uma singeleza que são sustentadas por uma inegável habilidade – forjada em parte pela aptidão e em parte pela experiência dos artistas envolvidos.

Esta introdução se faz necessária para salientar a beleza de Pagliacci, novo espetáculo do LaMínima que segue em cartaz no Teatro do SESI-SP até dia dois de julho. Inspirado em I Pagliacci, ópera de Ruggero Leoncavallo estreada em 1892, Pagliacci subverte a lógica do original e injeta humor onde havia tragédia. Mais do que isso, a adaptação é uma sensível e delicada declaração de amor ao circo-teatro, à palhaçaria e aos artistas mambembes.

Há risco nessa tentativa, claro, como o de ser muito reverente, ou muito auto-referencial, ou muito piegas, nostálgico ou melancólico, para citar algumas das armadilhas possíveis. Por sorte, trata-se do oposto: na forma e no conteúdo, Pagliacci reaviva nosso amor por este universo justamente por mostrar a potência do riso e o poder de maravilhamento que as artes da cena conseguem exercer sobre os espectadores.

Criada em conjunto, baseando-se no original italiano e a partir do constante diálogo entre o processo de escrita do dramaturgo e o de improviso dos atores, o texto de Luis Alberto de Abreu acompanha os encontros e desencontros de um grupo de artistas de rua às voltas com a produção de um novo espetáculo, um drama refinado que os distancie do humor popular feito até então pela companhia. Seguindo a estrutura da tragédia de Leoncavallo, à medida que os ensaios seguem, o amor proibido entre Nedda, esposa do dono da trupe, e Silvio, um palhaço do elenco desabrocha, servindo de conflito principal para a trama.

Simples sem ser reducionista, a dramaturgia serve de plataforma para alguns números e rotinas circenses, apresentados ao longo do processo de construção do drama, ao mesmo tempo em que reflete sobre o valor das artes e do humor. Com invejável domínio técnico, os atores dão corpo ao todo e preenchem os espaços onde o texto não pode ir: improvisam, interagem com a plateia e abrilhantam a excelente poesia de Abreu com seus dons humorísticos, circenses e musicais.

Parece contraditório que eu chame de simples um espetáculo que bebe da ópera e que apresenta uma mistura tão rica de linguagens artísticas. De fato, Pagliacci é de uma exuberância e de um primor técnico, além de um requinte no acabamento que deixa claro o quilate dos artistas envolvidos. A questão, contudo, não é o que eles fazem, mas como.

Sendo todos os artistas envolvidos donos de extensas carreiras nas artes da cena – tomemos por medida o fato de o LaMínima, grupo que concatena todos os talentos presentes, estar celebrando 20 anos – ,  era de se esperar ver um grupo tão maduro e afiado.  Pelo menos em algum momento do espetáculo, todos os artistas no palco cantam, tocam, fazem graça ou comovem (cada um a seu jeito, tendo mais facilidade para uma ou outra coisa, mas todos fazendo muito bem o que se propõem a fazer). Contudo, a faixa azul que dá o laço final é que todos fazem as coisas incríveis que fazem como se tudo fosse fácil.

Tudo flui de modo natural, e é um deleite ver artistas tão impressionantes no ápice de suas formas. Número após número, piada após piada, música após música, todos mostram habilidades notáveis sem que haja o burocrático momento para o aplauso ou sem que a exibição de talentos seja um exercício de vaidade – tudo que acontece no palco serve para manter a história em movimento e para maravilhar a plateia. E os artistas ainda se permitem rirem de si mesmos e uns dos outros – e, por extensão, de nós, do ridículo do humano – num riso camarada, solidário, de quem entende de que somos todos inevitavelmente patéticos, mas que essa é também uma de nossas belezas e matéria-prima valiosíssima para quem souber transformá-la em arte.

É aí que se vê a reflexão que Pagliacci sugere: por mais difícil e inconstante que seja a vida daqueles que vivem da itinerância e da conquista da plateia, tudo parece valer a pena no final. É lindo ver alguém como Fernando Sampaio, que devotou sua vida ao humor, fazer graça como se fosse a coisa mais natural e fácil do mundo.  Mais do que isso, é inspirador e, como dito anteriormente, reforça o amor da plateia pela arte.

Deslumbrante do início ao fim, Pagliacci dá uma vontade danada de largar tudo e fugir com o circo.

Pagliacci
Concepção: Domingos Montagner e Fernando Sampaio
Texto e adaptação: Luís Alberto de Abreu
Direção: Chico Pelúcio
Diretor assistente: Fabio Caniatto
Direção musical e música original: Marcelo Pellegrini
Elenco: Alexandre Roit (Canio), Carla Candiotto (Strompa), Fernando Paz (Peppe), Fernando Sampaio (Silvio), Filipe Bregantim (Tonio) e Keila Bueno (Nedda)
Iluminação: Wagner Freire
Cenografia: Marcio Medina e Maristela Tetzlaf
Figurino: Inês Sacay
Adereços: Cecília Meyer
Visagismo: Simone Batata
Pintura artística dos telões: Fernando Monteiro de Barros
Assistente de pintura: Jonathas Souza Braga
Costureiras: Benê Calistro, Célia Calistro e Cidinha Calistro
Direção de Produção: Luciana Lima
Produção executiva: Priscila Cha
Administração: José Maria (Nia Teatro)
Assistência de produção e de administração: Chai Rodrigues
Assistência de produção: Karen Furbino
Assessoria de imprensa: Márcia Marques (Canal Aberto)
Programação visual: Sato Brasil  e Murilo Thaveira (Casa Da Lapa)
Carlos Gueller e Paulo Barbuto
Supervisão geral: Fernando Sampaio e Luciana Lima.

Música originalmente composta e arranjada por Marcelo Pellegrini
Produção musical: Surdina
Músicos: Gabriel Levy (Acordeon), Luiz Amato (Violino), Adriana Holtz (Violoncelo), Maria Beraldo Bastos (Clarinete), Rubinho Antunes (Trompete), Paulo Malheiros (Trombone), Tuto Ferraz (Bateria), Pedro Pastoriz (Banjo), Ronem Altman (Bandolim) e Leonardo Mendes (Guitarra)
Projeto de sonorização: Bruno Pinho
Músicas incidentais adicionais: “Intermezzo” e “Vesti la Giubba” da ópera “I Pagliacci” (Ruggero Leoncavallo), “Preludio – Ato I” da ópera “La Traviata” (G. Verdi), “Coro di zingari” da ópera “II Trovatore” (G. Verdi), “Preludio – Ato I” da ópera “Carmen” (G. Bizet), “Valsa – Ato I” de “Coppélia” (L. Delibes) e “Minha Vontade” (Chatim)
Elenco: Alexandre Roit (Flauta, Trombone, Piano de Garrafa e Percussão), Carla Candiotto (Acordeon e Percussão), Fernando Paz (Serrote, Trompete e Acordeon), Fernando Sampaio (Sousafone, Concertina, Piano de Garrafa, Teclado de Buzina e Percussão), Filipe Bregantim (Saxofone, Piano de Garrafa e Percussão) e Keila Bueno (Voz e Percussão)

Serviço
De 30 de março a 2 de julho de 2017. Quinta à sábado, às 20h e domingo, às 19h.
Apresentações extras: 12 de abril, às 20h | 7, 14 e 21 de junho, às 20h.
Local: Teatro do SESI-SP, Centro Cultural Fiesp (Avenida Paulista, 1313 – em frente à estação Trianon-Masp do Metrô).
Grátis. As reservas antecipadas de ingressos podem ser realizadas on-line pelo sistema Meu Sesi (www.sesisp.org.br/meu-sesi). Os ingressos remanescentes serão distribuídos nos dias do espetáculo, conforme horário de funcionamento da bilheteria (quarta a sábado, das 13h às 20h30, e aos domingos, das 11h às 19h30).

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

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