CRÍTICA: PARA ASSISTIR UM HIP-HOP AO PÔR DO SOL

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Pôr do sol encanta e transforma cenário de apresentação de Hip-hop na Bienal Sesc de Dança, em Campinas. Foto: Kyra Piscitelli
Pôr do sol encanta e transforma cenário de apresentação de hip-hop na Bienal Sesc de Dança, em Campinas. Foto: Kyra Piscitelli

CAMPINAS* – Visitar a Estação Cultura de Campinas é por si só entrar em contato com um período importante da história do Brasil e, principalmente, do desenvolvimento de São Paulo. A estação, segundo arquivo da USP, “marca o início do ciclo ferroviário paulista, concretizado a partir de 1868, com base em investimentos de capitais regionais”. O local foi um dos palcos da 9ª edição da Bienal Sesc de Dança, que pela primeira vez é sediada na cidade.

Como mote de preservação, a antiga estação de trem virou um centro cultural. Um espaço e uma arquitetura incrível – de estilo inglês – monta o cenário que parece de filme. O toque de contemporaneidade fica por conta dos grafites que circundam as paredes. Ainda, que com justiça, o povo da cidade queira que a estação tenha uma preservação e um trato mais cuidadoso.

Foi sob esse cenário, em meio a um pôr do sol, que assisti o espetáculo de hip-hop da Cia Híbrida. Ainda que não consiga pensar em uma ambientação melhor para o espetáculo Olho Nu, confesso que a vista e paisagem me roubou a atenção. E não foi só o pôr do sol, mas o trem e toda a magia que envolve a história daquele lugar.

A ideia de Olho Nu é interessante e inclusive fundamental para um Festival de dança que quer diversidade e discutir a cidade. Poucos estilos de dança trabalham a cidade e toda sua pluralidade e desigualdes como o hip-hop.

Fundada em 2007 e dirigida pelo bailarino e coreógrafo Renato Cruz, a Cia Híbrida busca com esse espetáculo discutir isso: a fragilidade do hip-hop. É uma dança de resistência, que vem para ocupar espaços. Incomodar e se acomodar na cidade. É um grito. Mas, ainda assim, olhar todos aqueles elementos – e até o sol que se pôs bem em frente de mim – me dava uma sensação de que algo faltava. Usar aqueles elementos, o barulho do trem a seu favor. Talvez um improviso de acordo com o espaço emque o espetáculo se instala?

Olho Nu fez parte das atividades gratuitas da Bienal e, curiosamente, foi a que eu mais vi púbico espontâneo, o que me deixou muito feliz. É comum, na maioria dos Festivais, as figuras que acompanham e assistem as atrações serem rostos conhecidos. sempre as mesmas pessoas. E lá estava lotado. As cadeiras não foram suficientes e houve quem assistisse ao espetáculo de pé.

Aliás, assim devíamos estar todos. De pé, ou no máximo sentados no chão em almofadas. Com um espaço como a Estação Cultura, fazer uma roda com centenas de cadeiras para fechar aquele imenso retângulo em um pequeno círculo é subaproveitar. Fizéssemos uma roda maior para remontar as reais rodas de Hip-Hop. Sem as amarras das cadeiras. Ocupando o espaço de forma real. Ora, o espetáculo durou cerca de 50 minutos. É curto. hip-hop e formalismo não combinam, ainda mais quando o espaço é uma Estação Cultura.

Vendido como um dos trunfos do espetáculo, a participação do público acontece em momentos bem pontuais. Não é durante o espetáculo e sim no início e final. No início, por exemplo, algumas pessoas são convidas a escolher os figurinos que serão usados na apresentação do dia. Faltou ver o público integrado ao espetáculo, sentindo e aprendendo o que é hip-hop. Embora, isso até ocorra quando parece que os bailarinos vão invadir a plateia com os passos da coreografia – dançando com o mínimo de folga entre o que seria o palco e o público.

O grupo deve ainda se apresentar em Portugal e França, lugares interessantes para apresentar um espetáculo de resistência.

*Kyra Piscitelli viajou à convite da Bienal Sesc de Dança.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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