Crítica: Peça chilena foca na construção da imagem pública e coloca em xeque conservadorismo versus progresso

SANTOS* – O Colectivo Zoológico, em co-criação com a companhia alemã Theater Und Orchester Heidelberg, do Chile, apresentou no Mirada 2018 o instigante espetáculo Nimby (Nosotros Somos Los Buenos) em que a questão da construção de uma imagem pública que interesse aos preocupados em ser “os detentores do bem estar” e nos coloca a seguinte questão: “Será mais justo conservar o ambiente como nos foi dado ou abrir mão da natureza para que possamos usufruir das possiblidades do progresso?”.

Uma comunidade que defende a conservação das tradições, do ecossistema local, da paz, da distância e dificuldade do acesso à cidade, se vê em meio a uma “catástrofe” gerada pela construção de um condomínio popular em seu entorno. Árvores são derrubadas para erigir os edifícios, a estrada de terra – que mantinha dificuldades de contato com o restante do Estado – é asfaltada, enfim, a “paz” daqueles que defendem o conservadorismo é “invadida pelo progresso”. O problema que enfrenta é a divisão de opiniões entre a sua população e, para manter a unidade de pensamento, ou seja, a unidade de pensamento que lhe é conveniente, contrata o serviço de europeus – “profissionais qualificados” – para controlar e unificar, de acordo com o que eles (os dirigentes dessa comunidade ecológica) desejam, a população.

Os europeus contratados defendem que o mais importante é frisar a imagem de que eles (os dirigentes da comunidade ecológica) são os bons, os benfeitores, os que lutam pelos direitos mais justos. Essa divisão entre “bons” e “maus”, que é indicada pelos europeus, é extremamente maniqueísta, embora funcional; a realidade é muito mais múltipla de sentidos do que se imagina – a cena em que os conservadores dirigentes da comunidade ecológica evidenciam seus pensamentos machistas e suas propensões homossexuais camufladas em “instinto natural” deixam claro que a diferença entre o que se diz ser é completamente distante do que de fato se é.

Nimby não toma partido, mesmo por que tomar partido no caso é reduzir o tamanho infinito de possibilidades de nosso livre arbítrio, entre os da “comunidade ecológica” e os da “comunidade popular” ele critica a criação de realidades que sirvam aos detentores de poder, coloca em xeque a manipulação de notícias, imagens, entre outra mídias que “fazem” a realidade, critica o sexismo, enfim, a dramaturgia de Juan Pablo Troncoso (com dramaturgismo de Sonja Winkel) convida o espectador à questionar seus próprios valores e pensar em seu  próprio maniqueísmo. Outro ponto notável na dramaturgia é a forma das narrativas que conduzem o espetáculo, tornando o espectador ora parte do mesmo espetáculo – seja como ouvinte da assembleia dos condôminos no início do espetáculo ou como a população que ouve os argumentos e os absurdos da coletiva do imprensa -, ora como espectador onisciente das tramoias dos dirigentes da comunidade ecológica orientados pelos profissionais europeus.

O elenco formado por Germán Pinilla, José Manuel Aguirre, Juan Pablo Troncoso, Martin Wissner, Nicole Averkamp e Viviana Nass alcançam empatia total com o público de forma que a defesa de pontos de vista diversos, defendidos com a qualidade e verdade profundas, torne mais difícil a decisão do público por este ou aquele lado.

A utilização de multimídia, criação de Pablo Mois, é orgânica ao espetáculo e dá a dinâmica rítmica ao mesmo.

*Michel Fernandes viajou à convite do Mirada 2018

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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