RIO DE JANEIRO: Recentemente, dois casos de violência contra a mulher chocaram o país. Um marido agrediu sua esposa na frente das câmeras de segurança do prédio em que moravam e terminou matando ao jogá-la pela janela. Em outro caso, uma mulher se recusou a entregar o celular para seu namorado. e levou um tiro. Crimes hediondos, que até pouco tempo atrás insistiamos em chamar de crimes passionais, que acontecem a todo momento. Os casos são chocantes e,na maioria das vezes, o criminoso fica impune.

O espetáculo Por elas, até que a morte nos separe, com dramaturgia e direção de Silvia Monte trata desse tema com bastante seriedade. O tom de denúncia está presente no ambiente da cena ao desfecho final e o resultado artistico não é maçante e, menos ainda, recai num didatismo fácil. A urgência da discussão do tema e sua amostragem em cena nos faz querer falar sobre isso sem tabus.

Quando entramos no teatro, uma música ambiente toma o espaço e cria logo de cara um clima de tensão. As atrizes estão todas sentadas em banquinhos de madeiras, dispostas numa arena circundada pelo público que vai tomando os lugares. Elas não estão numa postura neutra no sentido de estarem ali como atrizes que recebem o público e vão começar um jogo. Elas já estão imbuídas de suas personagens e isso é dado com bastante clareza como escolha da direção. Estão todas com vestidos pretos com detalhes em renda, o que sugere luto. A partir do terceiro sinal, uma a uma começa a expor sua história de violência doméstica, como se estivessem numa sessão de grupo de apoio às vítimas de violência. Um único ator se reveza nos personagens masculinos que cometeram a violência, também nessa linha interpretativa bem marcada e cheia de nuances da personalidade de cada algoz.

O tom usado pelas atrizes é bem dramático, com a construção de personagens bem delimitadas por jeitos e trejeitos daquelas mulheres que a diretora retirou da realidade. Há a patricinha, a mulher da favela, a senhora conservadora, a religiosa, a delegada, a mulher simples do nordeste. A escolha por esse tom, pela construção de personagens quase estereotipadas, em princípio promove um afastamento do espectador, já que vemos esse modelo saturado no teatro, no cinema, na televisão.Mas, ao longo do espetáculo, entendemos que essa escolha possibilita que as atrizes usem do humor para marcar essas construções, como ferramenta que possibilita uma empatia mais rápida do espectador, além de criar uma chance de respiro diante da violência e do peso exposto pelo teor dos depoimentos. Quando o espectador se dá conta de que essas histórias foram tiradas da realidade, sem ficcionalização dos fatos,, a empatia pelas personagens aumenta tornando a peça mais palatável para seguirmos ouvindo tanta atrocidade com desfechos tristes.

O texto, assinado pela diretora e também por Ricardo Leite Lopes, pega todas essas histórias e faz uma costura dramática em que podemos perceber em cena personagens da realidade contando fatos reais. Não se trata apenas de histórias aleatórias sobre crimes contra a mulher que os dois autores simplesmente colheram e juntaram numa ideia de fazer uma sessão em que cada uma conta sua experiência e o público ouve. Há uma carpintaria dramatúrgica que nos faz ver depoimentos reais envolvidos por uma trama fabular que prende nossa atenção até o final.

Por elas, até que a morte nos separe, é uma peça política, é uma peça denúncia. No dia que assisti pude perceber uma expectação absolutamente impactada do meio para o fim, com muito choro, indignação e revolta. O teatro como arte não tem função, sabemos disso. O teatro é um lugar de um experimento sensível de pessoas para outras pessoas verem. Ele pode falar de tudo. Mas sabemos do poder que a arte tem quando promove o pensamento, a reflexão da realidade e aciona a sensibilidade do espectador para questões extremamente humanas. O tom de relato no trabalho de Silvia Monte é revestido de denúncia e vemos nessa escolha por parte do conjunto de artistas que fazem da peça um “não podemos nos calar” diante das atrocidades contra a vida humana. Aquelas histórias reais trazidas a público e compartilhadas possibilitam, através do discurso artistico, que outras mulheres possam se sentir acolhidas, encorajadas, instigadas a tratar do assunto e a denunciar qualquer violência.

Dâmaris Grün, especial para o Prêmio Aplauso Brasil (damarisgrun@gmail.com)