CRÍTICA: “PERGUNTE AO TEMPO” FAZ UMA BEM-SUCEDIDA BRINCADEIRA COM O DESTINO

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"Pergunte ao Tempo". Foto/crédito: divulgação.
“Pergunte ao Tempo”. Foto/crédito: divulgação.

SÃO PAULO – Ser dono do nosso destino, mudar atitudes e escolhas é o mote do espetáculo Pergunte ao Tempo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, as segundas e quartas-feiras, às 20h. Os temas mexem com o imaginário do homem e não atoa embarcaram sucesso na televisão, no cinema e no teatro. Com texto e direção de Otavio Martins, a peça merece atenção pela forma onírica que trata do assunto, ótimo elenco em cena e por não trazer nenhuma resposta pronta ou piegas.

O que você faria se tivesse a chance de se reencontrar décadas antes? Confrontar quem se tornou e quem era? Além de poder reunir pessoas com quem partilhou sonhos e fracassos na trajetória? Pergunte ao Tempo é daqueles espetáculos que deixam as pessoas pensativas, com mais dúvidas do que certezas. E a julgar pelo título, talvez, seja a intenção.

Otavio Martins partiu da morte do seu pai para construir essa ideia. Para usar o teatro e perguntar a todos o que faríamos se pudéssemos quebrar a barreira do espaço e tempo. A morte especificamente provoca isso em nós. Quando perdemos alguém a quem amamos sempre desejamos ter passado mais tempo com ela, sempre mudaríamos um ponto ou outro na relação e, por vezes, nos indagamos como teria sido se… se….O se e o desconhecido para além dessa caverna chamada vida nos possibilita voar por essa reflexão.

O texto é estritamente poético e alterna entre humor, drama e suspense. É verdade que a história demora um tanto a começar por conta desse suspense, mas, consegue ser bela e envolver emocionalmente. Tanto é que será difícil alguém sair da história com uma opinião 100% formada sobre Pergunte ao Tempo. Será preciso pensar.

Pergunte ao Tempo se passa em três tempos: anos 90, em 2010 e no futuro – mais ou menos no meio do século – E o encontro dos três personagens em questão acontece no segundo período, o que confere segurança para o autor trabalhar os fatos históricos já ocorridos e imaginar sobre os comportamentos imutáveis do homem no futuro. No texto só há um furo perceptível: ter menção da Copa do Mundo de 2014, sendo do que o espetáculo se passa em 2010.

Os atores Luiz Damasceno, Giovani Tozi e Guta Ruiz contracenam lindamente. Vão dos picos de alegria aos de tristeza com maestria. A trilha de Ricardo Severo, o barulho de água no chão (que é parte do cenário), e o preto da cena criada por Cássio Brasil, também responsável pelo figurino, dão a atmosfera onírica para o ambiente. O figurino usado por Guta Ruiz, a única personagem que é impossível saber de que tempo vem, colabora com o clima e enriquece o cenário – parece parte dele, inclusive. E, provavelmente, esse não saber confere a personagem o direito de saber de tudo. É nela que consiste boa parte das falas de carga dramática do espetáculo. E por isso, talvez, possa saber até da Copa do Mundo que ainda não aconteceu naquele espaço-tempo.

O trabalho de luz, assinada por Pedro Garrafa, casa com a trilha e o cenário. Acompanha o ritmo do espetáculo e hora é inexistente, hora é imperceptível e hora é a própria estrela. Pergunte ao Tempo é assim: um trabalho cheio de nuances, feito com esmero nesses detalhes estéticos.

O autor consegue abrir a sua caixa de reflexões e transpor a dor da perda em arte. Uma arte que foge do comum, seduz a imaginação e traz perguntas para quem tem a chance de assistir e também se questionar. Uma viagem pela qual todos nós passamos várias vezes na vida, mas que a presença da morte intensifica. E se tivéssemos mesmo a chance de quebrar o espaço tempo? O que faríamos e o que contaríamos da nossa história?

Ficha Técnica

Texto e Direção: Otavio Martins

Produção: Rodrigo Velloni

Elenco: Luiz Damasceno, Giovani Tozi e Guta Ruiz

Cenário e Figurino: Cassio Brasil

Direção Musical: Ricardo Severo

Iluminação: Pedro Garrafa

Assistente de Direção: Juliana Araripe

Fotos: Priscila Prade

Direção de Arte Gráfica: Giovani Tozi

Produção Executiva: Adriana Souza

Assistente de Produção: Daise Sena

Administração Financeira: Vanessa Velloni

Produção: Velloni Produções Artísticas Ltda.

Realização: Secretaria de Estado da Cultura e CCBB

Serviço

PERGUNTE AO TEMPO

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Álvares Penteado, 112. Centro

3113. 3651 / 3113.3652

www.bb.com.br/cultura www.twitter.com/ccbb_sp www.facebook.com/ccbbsp

Acessos: Estações Sé e São Bento do Metrô. Praças do Patriarca e da Sé.

Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física / Ar-condicionado / Estacionamento: Estapar Estacionamento Rua Santo Amaro, 272 (R$ 15 pelo período de cinco horas. Necessário carimbar tíquete na bilheteria do CCBB Van faz o traslado gratuito no trajeto estacionamento CCBB. Na volta, parada no Metrô República antes do estacionamento

Segunda e Quarta às 20h

Ingressos:

R$ 10

Duração: 75 minutos

Recomendação: 14 anos

Estreou dia 21 de Outubro

Temporada: Até 16 de Dezembro

 

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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