CRÍTICA: PERIFERIA CARIOCA GANHA SOM E VOZ NO FESTIVAL DE CURITIBA

Kyra Piscitelli do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

" Eles Não Usam Tênis Nique". Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto
” Eles Não Usam Tênis Naique”. Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto

CURITIBA – Em meio a uma concentração de espetáculos vindos do Rio de Janeiro e São Paulo para participar o Festival de Curitiba, uma chama a atenção: Eles Não Usam Tênis Naique é a voz da periferia. Embora, outras peças tragam a temática de uma forma ou outra, essa é autêntica por ser feita por atores da favela da Maré.

O embate geracional entre o pai que foi traficante nos anos 80 e a filha que é a atual traficante é o ponto de partida de Eles Não Usam Tênis Naique.  Quatro atores em cena (Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo e Wallace Lino) se revezam nos dois papéis conferindo perspectivas diferentes para cada um.

No palco o tráfico e a vida na favela estão colocados não por representantes e sim por quem viveu e viu aquela realidade. A realidade, às vezes dura e inóspita para a classe média e alta, é representada quase que para cumpri uma cota, de forma a não machucar muito. E não é isso que acontece em Eles Não Usam Tênis Naique. Ali, a voz e a bola está na mão deles. É uma apropriação de um discurso que muitas vezes é cooptado para ficar mais palatável.

" Eles Não Usam Tênis Nique". Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto
” Eles Não Usam Tênis Naique”. Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto

Com o músico Rodrigo Souza em cena e direção musical de Thomas Harres, o som da periferia é presente em todo o espetáculo. Vira, inclusive, dramaturgia. Ajuda a levantar questões da história do tráfico e também fala para as universalidades de quem vive na exclusão social.

Será que eles se pudessem sairiam dessa situação? Há saídas? Para onde iriam? Há escolhas? Todas essas perguntas que partem do texto de Marcia Zanelatto, ganham força com a direção de Isabel Penoni e verdade na voz dos atores da Cia Marginal, que  carregam dez anos de história.

" Eles Não Usam Tênis Nique". Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto
” Eles Não Usam Tênis Naique”. Foto: Festival de Curitiba/Annelize Tozetto

Cada uma dessas perguntas recebe mais de uma resposta e a intenção do espetáculo parece mesmo ser dar voz à periferia, sem trazer moral ou fatos prontos. É simplesmente um grito necessário que extrapola a origem ao ter uma plateia cheia do maior Festival de Teatro do Brasil, e em uma cidade vista como conservadora.

Local: Sesc da Esquina
Endereço: Av Visconde de Guarapuava, 969 Centro

Assistente de produção: Priscilla Monteiro.
Autoria: Marcia Zanelatto.
Cenário: Guga Ferraz.
Direção: Isabel Penoni.
Direção Musical: Thomas Harres.
Elenco: Geandra Nobre, Jaqueline Andrade, Phellipe Azevedo, Rodrigo Souza, e Wallace Lino.
Figurino: Raquel Theo.
Foto: Ratão Diniz.
Intervenção dramatúrgica: Cia Marginal.
Luz: Pedro Struchiner.
Produção: Mariluci Nascimento.
Programação visual: Daniel Kucera.
Realização: Cia Marginal.
Trilha sonora original: Rodrigo Souza e Thomas Harres.
Companhia: Cia Marginal
Gênero: Drama

Saiba mais do Festival em http://festivaldecuritiba.com.br/mostra-2016/

Kyra Piscitelli viajou a convite do Festival de Curitiba

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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