CRÍTICA: “POEMA SUSPENSO PARA UMA CIDADE EM QUEDA”, OU SOBRE A PERMANÊNCIA

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Espetáculo sobre um corpo que cai de um prédio e a vida dos moradores deste imóvel faz parte da ocupação que a Cia Mungunzá faz na Caixa Cultural até dia 19 de fevereiro, de sexta a domingo. Os ingressos são gratuitos, com retirada de ingressos a partir das 9h do dia da apresentação.

Um corpo despenca do topo do prédio, numa queda que não se completa nunca. Da mesma forma, os moradores do edifício permanecem com suas vidas suspensas, com esperas que nunca terminam, conclusões que não chegam e feridas que não cicatrizam, num cabo-de-guerra entre passado e presente. Como o nome sugere, Poema Suspenso Para Uma Cidade Em Queda versa sobre o modo como percebemos o nosso desabamento, ou o mundo que desmorona ao nosso redor.

Com uma dramaturgia inspirada por experiências pessoais dos atores, surgida na sala de ensaios e finalizada por Verônica Gentilin (também em cena, interessantíssima), o espetáculo da Cia Mungunzá propõe-se uma fábula sobre a imobilidade e a desconexão entre as pessoas. Com um imenso andaime modular fazendo as vezes de prédio, cada ator permanece no seu espaço, ilhado, e seu isolamento faz tanto parte do jogo quanto a dificuldade que eles têm em se deslocar de um espaço a outro da cenografia – reverberando a proposta dramatúrgica sobre a nossa inabilidade de nos relacionarmos.

Não é à toa que todos os personagens interajam mais com o prédio do que com os colegas: acolhidos e aprisionados pela construção, e na ausência de um interlocutor, a única possibilidade de diálogo deles é com o próprio espaço que ocupam, da mesma forma que a única voz que ouviriam seria o eco da sua própria. E a ocupação nem é de fato harmônica, já que existem muito mais vãos, espaços vazios e barreiras do que pontes ou portas.

Se o texto narra uma história fragmentada e fantástica, de muitas possibilidades de leitura, a competente direção de Luiz Fernando Marques e a excelente cenografia elaborada pela Cia Mungunzá em parceria com Marques e Paulo Arcuri auxiliam na organização das ideias e materializam a poética proposta pela dramaturgia: a enxurrada de folhas, ou o andaime de quatro metros que gira com intensidade são recursos que reforçam a ideia de poema sugerida pelo título.

No meio dessa grandiloquência, detalhes sutis como a pipoqueira que serve como filmadora, ou a luz vermelha que baila ao fundo dão à encenação um ar lúdico, teatral, que a embeleza ainda mais.  O trabalho dos atores também merece nota, sobretudo a interação entre Gentilin e Marcos Felipe na delicada cena da morte do pai, ou o final com todos do elenco – a mais simples e (talvez justamente por isso) mais potente do espetáculo.

Quando o coletivo, num espetáculo que fala (não só) sobre o distanciamento, decide derrubar a quarta parede e falar diretamente com o público, há uma nota de otimismo, como se houvesse algum modo de reverter esse processo de empobrecimento de relações que a contemporaneidade tem nos imposto. Talvez o teatro seja uma forma de combatê-lo.

É interessante relacionar Poema Suspenso Para Uma Cidade Em Queda com o Teatro de Contêiner, iniciativa do grupo de estabelecer um centro cultural e de convivência na região conhecida como Cracolândia, no bairro da Luz. O projeto soa como um desdobramento natural da pesquisa da qual o espetáculo também faz parte, que reflete sobre os modos de residir e se conectar com a cidade e seus habitantes. Em tempos de desconexão, a companhia investe na criação de espaços de troca, poéticos ou concretos.

Poema Suspenso Para Uma Cidade Em Queda
Elenco – Verônica Gentilin, Virginia Iglesias, Lucas Bêda, Marcos Felipe e Sandra Modesto.
Direção – Luiz Fernando Marques.
Finalização Dramatúrgica  Verônica Gentilin.
Dramaturgia – Cia Mungunzá de Teatro e Luiz Fernando Marques.
Argumento – Cia Mungunzá de Teatro.
Técnicos Performances – Pedro Augusto e Leonardo Akio.
Diretor Assistente –Paulo Arcuri.
Trilha Sonora Composta – Gustavo Sarzi.
Desenho de Luz – Pedro Augusto.
Cenário – Cia Mungunzá de Teatro, Luiz Fernando Marques e Paulo Arcuri.
Direção de Arte e Figurinos – Valentina Soares.
Vídeo – Lucas Bêda
Fotografia e Registro do Processo – Mariana Bêda

Serviço
Até 19 de fevereiro. Sexta a domingo, às 19h15
Grátis, com retirada de ingressos a partir das 9h do dia do espetáculo
Caixa Cultural São Paulo. Praça da Sé, 111. Centro.

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