CRÍTICA: PORQUE O CAOS TAMBÉM É INTERESSANTE

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)
TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)

SÃO PAULO – Uma das sensações materializada em vozes que martelam a mente de quem assiste Tragédia (Tragédie), concebido e dirigido por Olivier Dubois para o seu Ballet du Norde, é a ideia imperativa de que o caos pode ser tão ou mais interessante que a ordem, pelo menos a uniformização que nos coloca numa zona de conforto, estabelecida.

TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)
TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)

Segundo define a tragédia, o filósofo grego Aristóteles, em sua Poética, como terreno da mímesis (imitação de uma ação elevada), da ação (o destino do herói crivado de impasses), da catarse (purgação de alguns sentimentos do público), da divisão em três etapas: prólogo, episódio e êxodo –, tais elementos, de forma relida, compõe o espetáculo de Dubois.

Em Tragédia (Tragédie) as três etapas, embora há três momentos diferenciados, se interpenetram; o início é marcado por uma marcha, em que os bailarinos nus (ficam assim até o final) executam uma marcha em linhas horizontais e paralelas (eles não se olham no olho nem se relacionam e como na máxima geométrica de que duas paralelas não se encontram) estão focados em reproduzir movimentos corriqueiros e uniformizados, presos a uma realidade homogênea e, mesmo que perversamente, confortável, porque isenta de surpresas. Tal marcha é definitivamente, vamos chamar esse segundo momento de “episódio”, em que o corpo dos bailarinos é tomado por “espasmos” que os retira da uniformidade corêutica do princípio.

TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)
TRAGÉDIA (TRAGÉDIE)

Alterada a qualidade de movimentos, as expressões faciais outrora neutras passam a conviver com a tragédia dos impasses individuais a que estão, doravante, expostas. Quanto à homogeneidade das linhas geométricas, também há alterações: os bailarinos “pulam” de uma a outra faixa paralela, exploram as diagonais, formam dois grupos que se defrontam, além de estabelecer, cada qual em seu grupo, movimentos estatuários com os membros.

Ainda nos “episódios” nos deparamos com uma espécie de ritual báquico revestido de festas rave em que numa espécie de orgia espasmódica, os bailarinos apresentam uma amplitude, jamais vista por mim, de minimalistas movimentos musculares que parecem energia em estado puro.

A energia pulula no “êxodo”, a derradeira parte do espetáculo, misturando-se, aqui, as linhas geométricas do “prólogo” e dos “episódios”, bem como os espasmos e a rave dessa parte, só que numa escala extática. A catarse se dá nessa eufórica e sudorífica energia empregada pelos bailarinos e afeta a quem os acompanha.

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*