Crítica: “Pós-F” faz homenagem à Fernanda Young em teatro online requintado

Maria Ribeiro em “Pós-F”. Foto: Bob_Wolfenson

EM REDE – O solo teatral baseado no livro Pós F, para além do masculino e do feminino, de Fernanda Young, em cartaz no Teatro Porto Seguro, é um dos resultados mais interessantes em termos de teatro online. Provavelmente, isso se dê porque o espetáculo mescla a tecnologia do virtual com teatro de fato. Em cena Maria Ribeiro sob a batuta da diretora Mika Lins e uma equipe afiada criam atmosfera além do básico, como merece Fernanda.

Fernanda Young, a atriz Maria Ribeiro e a diretora Mika Lins chegaram a dividir um ap em 2018 para pensar no espetáculo. O livro é o primeiro de não-ficção de Fernanda. A obra reúne textos autobiográficos e ilustrações da própria Fernanda que fomentam o debate sobre o que significa ser um homem e uma mulher nos dias de hoje.

Neste processo, Fernanda saiu das coxias do projeto, escolheu estar em cena com Maria, fizeram uma leitura, mas em agosto de 2019, Fernanda, aos 49 anos, morre de de uma crise de asma seguida de parada cardíaca. Três meses depois, Pós-F foi vencedor do Prêmio Jabuti. Mais um tempo depois, entramos em uma pandemia.

Passado tantos acontecimentos para tirar o fôlego de qualquer um, Maria Ribeiro e Mika Lins se reinventaram, mantiveram o projeto e estrearam a peça prometida anos antes. Em formato virtual, o espetáculo também abriu o teatro Porto Seguro. Sem público, mas feita ao vivo com requinte de grande produção, o palco do Porto Seguro se preenche de Fernanda.

A concentração no teatro online é invariavelmente diferente de um teatro comum, alguns rituais se perdem. Sair, encontrar amigos no saguão, desligar o celular. Em casa, todos estão longe de olhares julgadores. Os solos como Pós-F também ganharam espaço, são simples, envolvem menos pessoas… e facilitam a transformação de algo em digital.

Mas Pós-F não vai por esse caminho. Por sorte, a peça ganhou o investimento do Teatro, porque isso faz uma falta na arte – ainda mais neste momento. No início, Maria fica ali, falando… Mas, ao longo do espetáculo, a luz de Caetano Vilela, o cenário de Mika e a trilha de Estela May transportam ao universo de Fernanda, que hora é Maria Ribeiro, hora é como uma energia que paira em cena.

A mescla de vídeo, do palco do teatro, as inserções feitas pela atriz e diretora são fundamentais para deixar claro que aquele espetáculo é um processo raro, não daqueles feitos em três meses de ensaio de forma dura.
Reflexivo, autocrítico e uma viagem pelo ser humano que não tem respostas, gênero e nem fórmula de certo, errado ou verdadeiro ou falso.

Pós-F firma o que o melhor teatro online é aquele que é feito sem que se preocupe. Você que lute para grudar na tela e não perder, os objetos, a luz, o espaço ocupado, os cartazes e até as mesclas de linguagem e cores.

O espetáculo está em cartaz até 4 de outubro no Teatro Porto Seguro, aos sábados e domingos, às 20h. Os ingressos custam a partir de R$ 20 e tem debate depois, com Maria Ribeiro e um convidado diferente por sessão.

Ficha técnica – Pós F

Texto: Fernanda Young
Adaptação: Caetano Vilela, Maria Ribeiro e Mika Lins
Com: Maria Ribeiro
Direção e cenografia: Mika Lins
Iluminação: Caetano Vilela
Figurino: Maria Ribeiro e Mika Lins
Trilha Sonora: Estela May
Produtor da Live, Vídeo e Sonoplastia: Rodrigo Gava
Ilustração: Fernanda Young e Estela May
Cenotecnia e Objetos: Alejandro Huerta
Designer: Luciano Angelotti
Assessoria de comunicação: Morente Forte
Assessoria mídias digitais: Agencia Brain
Assistência, programação e operação de luz: Nicolas Caratori
Diretor de Palco: Alexander Peixoto
Assistente de produção: Camila Scheffer
Direção de produção: Dani Angelotti
Realização: Cubo Produções e Cia Instável

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!