CRÍTICA: PRETO NO BRANCO MOSTRA A FACE RÓSEA DA CRUENTA REALIDADE

Afonso Gentil, para o Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com

"Preto no Branco" está em cartaz no Sesc Bom Retiro. Foto/imagem: divulgação
“Preto no Branco” está em cartaz no Sesc Bom Retiro. Foto/imagem: divulgação

SÃO PAULO – Vinda do mais recente Festival de Teatro da Cultura Inglesa, está agora no belo espaço do SESC Bom Retiro, uma das mais prolíferas equipes (abominamos    o termo “coletivo” tão caro a uns tantos amantes do “performático”…) em atividade na capital, o Núcleo Experimental. A peça é a inglesa Preto no Branco, de Nick Gill, e dela – a peça – o público não sai como entrou. Mérito do autor, do diretor Zé Henrique de Paula, do elenco, da equipe de apoio.

Nick Gill nos parece um herdeiro inconteste de Bernard Shaw, pela visão corrosiva do mundo que marcou a extensa obra do genial irlandês, até agora imbatível nas flechadas certeiras ao ridículo da burguesia, que através do tempo muda de nome (agora classe média alta) mas,  não o rebolado. Detectamos também as nobres influências de Harold Pinter em Volta ao Lar (o cinismo das relações); de Ionesco (a artificialidade das  palavras) e do contundente cineasta Lucchino Visconti de Os Deuses Malditos (o tema do fornecimento de armas para os povos beligerantes).

Preto no Branco mexe, com precisão cirúrgica, no preconceito racial contra os negros exercido com cínica desenvoltura pela classe média inglesa, sob a capa teórica da aceitação. Como aqui no Brasil, convenhamos, daí o acerto da escolha do texto pelo Núcleo Experimental. O efeito na plateia é devastador, intimada a refletir sobre os atos abjetos que desfilam à sua frente.

Senão vejamos: uma típica família da classe média. O ritual das despedidas e das chegadas, dos jantares regados à convencionalidade das conversas ocas e vazias de real significado. De uma falsa crença nos valores sociais e morais que supõem defender.

Ledo engano: a simples presença do convidado da filha do casal, o jovem afro descendente, Kwesi, desencadeia na sra. Jones uma excitação que a tira da costumeira altivez; o Sr. Jones  se excita imaginando o rapaz servindo cafézinho para seus compradores de armas no oriente médio, para onde vão todos. Vemos em seguida que a filha moça, criada com liberalidade, quer sexo, venha de onde vier, do religioso e arredio namorado, do irmão ou de si própria. O irmão quer sexo, discretamente, mas muito assiduamente, mas não com a irmã… num primeiro momento. O conflito degenera em incesto, assassinato e estupro consentido pelo casal  Jones à vista de vantagens comerciais, numa cena paralisante para a plateia.

O espetáculo só não choca o tempo todo pelo humor crítico e ácido à maneira de Bernard Shaw, que Gill domina com sagazes observações da “comédia humana” de cada dia. A montagem de

Zé Henrique de Paula carrega a densidade e a coesão de propósitos que só se encontram nos grandes espetáculos, não deixando de enfatizar a contundência da mensagem antirracista caminhando lado a lado com o perigoso mergulho do mundo contemporâneo na decadência moral, um dia chamada de “revolução dos costumes”.

Clara Carvalho domina todas as nuances comportamentais da sua afetada e hipócrita sra. Jones, com brilho e lucidez, dando respiros involuntariamente cômicos ao denso enredo. Marco Antônio Pâmio está esplêndido na cínica amoralidade do farsante Sr. Jones. Bruna Thedy , sincera sempre, entrega seu corpo de atriz a serviço da dissolução da alma tresloucada da filha, Joan; por sua vez Thiago Carreira ganha pontos em sua ascendente trajetória para o protagonismo. Sidney Santiago, presença constante em nossos palcos, tem grandes momentos,     principalmente na 2ª. metade da peça. É dele o momento mais  impactante, bem no final.

Preto no Branco é um texto corajoso que desafia o público a  digeri-lo a seco!

SERVIÇO

PRETO NO BRANCO /  Sesc Bom Retiro /ALAMEDA Nothmann, 185, Campos Elíseos, telefone 3332-3600/ 291 lugares/ Ingressos a R$ 30,00 inteira. Sextas às 20 horas/ sábados às 19 horas e domingos às 18 horas/ Duração 90 minutos/ 14 anos/ Tem estacionamento próprio no local / até 30 de novembro/  apresentação extra no feriado do dia 20/11, quinta feira, às 18 horas. / Em dezembro e janeiro o espetáculo faz temporada no Nucleo Experimental (Rua Barra Funda)

 

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*