CRÍTICA: “QUANTOS SEGUNDOS DURA UMA NUVEM DE POEIRA”

São Paulo – Em cartaz até 26 de junho na SP Escola de Teatro, espetáculo da Cia Bruta de Arte acompanha a vida de um grupo de amigos reunido nas Ilhas Galápagos, onde Darwin começou a teorizar a evolução das espécies, e investiga o ser humano em bando, a fim de falar sobre a necessidade e os atritos de se viver em sociedade.

Ilhas são porções de terra, destacadas do continente, que são cercadas de água por todos os lados. Arquipélagos, por sua vez, são conjuntos de ilhas cercadas todas pelas mesmas águas, que tencionam as proximidades e distâncias entre si: estão afastadas o suficiente umas das outras para conservarem suas individualidades, mas próximas o bastante para que se perceba o agrupamento.

A relação entre coletivo e individual é o que dá a tônica de Quantos Segundos Dura Uma Nuvem de Poeira, espetáculo da Cia Bruta de Arte que fica em cartaz até 26 de junho na SP Escola de Teatro, de sábado a segunda.

Acompanhando um grupo de amigos reunido no Arquipélago de Galápagos, a peça se debruça sobre as relações intra e interpessoais para falar da vida em sociedade, de afetos, de insensibilidade, de sexualidade, de machismo, de racismo, de falta de rumo, de pertencimento, de xenofobia, de saudade, de memória e de morte.

Parece uma quantidade muito grande de assuntos para se tratar num único espetáculo de cerca de uma hora e meia, e talvez esse seja o ponto mais fraco da boa dramaturgia: ao tentar dar conta de tantos tópicos complexos ao mesmo tempo, ele pode soar um pouco apressado ou superficial, especialmente nos dias em que o elenco entra em cena um pouco mais frio, como na sessão assistida.

Ainda assim, a dramaturgia coletiva assinada por Angela Ribeiro, Ana Pereira, Roberto Audio e Washington Calegari sai-se muito bem em seus pontos mais altos, e faz apostas acertadas, como o uso do absurdo e do meta-teatro para salientar o ridículo e o sublime das relações investigadas. Da mesma forma, as imagens e metáforas propostas (as avestruzes e seu paralelo com o homem, o arquipélago e sua relação com o isolamento e com Darwin, o terremoto e a noção de cisão) resolvem de modo eficaz algumas das questões levantadas.

A direção de Roberto Audio consegue organizar bem o fluxo de ideias do texto, e garante uma transição suave de um tópico para o seguinte, ao mesmo tempo em que consegue garantir ao espetáculo uma identidade coesa, que talvez pudesse ser difícil de ser delineada graças ao excesso de assuntos propostos. Momentos inspirados, como as cenas que se passam ao redor da mesa, ou com as garrafas d’água, ou o início com a bexiga, garantem alguns dos melhores momentos da peça, junto com o recorrente e desconfortável (e por isso mesmo, excelente) jogo de colocar a plateia em foco, seja ao levar alguns espectadores para o palco no final, seja na cena em que o elenco nos observa como se fôssemos um bando de animais selvagens – e é impressionante como uma ação aparentemente simples como observar, sobretudo no contexto do espetáculo, carrega tanta força.

Duvidando que tenhamos saído do estado da barbárie – ou, pelo menos, acreditando que estamos prestes a voltar para ele sempre que o verniz social não for capaz de nos segurar – Quantos Segundos Dura Uma Nuvem de Poeira pode às vezes se desequilibrar com o monte de coisas que tem nas mãos, mas sai-se no final como um interessante painel sobre o homem em sua condição de animal social.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Quantos Segundos Dura Uma Nuvem de Poeira
Concepção e Direção: Roberto Audio
Dramaturgia: Angela Ribeiro, Ana Pereira, Roberto Audio e Washington Calegari
Elenco: Ana Lúcia Felippe, Ana Pereira, Angela Ribeiro, Fabiana d’Praga, Marba Goicochea, Rodolfo Morais, Teka Romualdo, Wanderley Salgado, Washington Calegari
Direção de movimento: Fabiano Benigno
Figurinos: Rosângela Ribeiro
Cenografia: Cia. Bruta de Arte
Iluminação: Paulo Maeda
Sonoplastia: Érico Theobaldo
Produção: Rodolfo Morais e Cia. Bruta de Arte
Projeto Gráfico: Angela Ribeiro

Serviço
De 06 de maio a 26 de junho. Sábados e segundas às 21h, domingos às 20h.
Ingressos: R$ 20,00
SP Escola de Teatro. Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação

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