CRÍTICA: “QUARTO 19”, A CASTRAÇÃO, O ALIENAMENTO E O SACRIFÍCIO

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO – Uma das convenções mais presentes na cena teatral é o aplauso. Faz parte do acordo acertado entre artistas e plateias: tão logo se apaguem as luzes, ao final do espetáculo, o espectador aplaude – e de pé –, um tanto como forma de parabenizar a equipe criativa, e outro tanto também porque se trata de uma convenção, uma questão de etiqueta, uma forma de cumprir com a sua parte no evento.

Na sessão que eu assisti de Quarto 19, algo curioso aconteceu: até que as luzes se acendessem e a atriz voltasse ao palco, ninguém aplaudiu. Não consigo pensar em prova maior da potência de um espetáculo do que essa de fazer a plateia se esquecer de sua convenção e ficar quieta, no escuro, absorvendo o que aconteceu no palco.

Baseado no conto To Room 19, da ganhadora do Nobel de Literatura de 2007 Doris Lessing, a peça narra a decadência de uma promissora jovem, que se casa com um promissor jovem e forma com ele a família ideal, com filhos alegres e saudáveis, uma casa espaçosa e dinheiro suficiente para dar conta da manutenção de tudo isso. O dinheiro é suficiente, inclusive, para que a esposa possa abrir mão do emprego numa agência de publicidade para se dedicar integralmente à criação dos rebentos e demais afazeres domésticos – afinal, marido e mulher concordam que as crianças precisam mesmo da mãe em casa.

Perceba-se, portanto, que mais do que versar sobre a falência do american dream, o espetáculo discute o papel da mulher na sociedade e na dinâmica familiar – as crianças, afinal, ficarão mesmo melhores com a mãe do que com o pai? Por que é ela quem deve renunciar à carreira e à independência? Por que ainda tendemos a distribuir papéis e funções sociais baseados em gênero, e não em qualquer outro fator que leve em conta a individualidade? É correto supor que, tão logo a mãe abandone o posto, outra mulher tomará seu lugar, não por competitividade, mas porque uma peça defeituosa deve ser substituída com rapidez? E de que maneira contribuímos para a manutenção dessa máquina?

Esta denúncia sobre a castração e o alienamento que são necessários a fim de manter a estrutura social vigente em ordem não é, como se pode imaginar, algo a ser aplaudido tão logo a última fala do espetáculo seja dada, porque o espetáculo não deseja ser encerrado aí, ao final de uma hora e pouco. Ele precisa ser digerido lentamente, o gosto amargo precisa perdurar na boca, o espectador precisa de tempo para refletir que o que foi exposto no palco não está limitado ao campo da ficção, mas sim que se trata de uma situação que interfere em sua própria vida e na de mulheres de seu círculo íntimo. O quanto esta história não cruza com a de sua mãe, esposa, filha, irmã ou amigas?

Ao conseguir conferir um estofo sociopolítico numa trama que poderia ser limitada ao melodrama burguês, ou ao ensaio sobre doenças psicológicas (e falar da depressão da protagonista sem falar também dos sacrifícios feitos por ela à estrutura da família tradicional seria de uma insensibilidade ímpar), Quarto 19 atinge seu objetivo de provocar a plateia não pela simples comoção causada pela tragédia da protagonista, mas sim por nos fazer olhar o casamento (e, por consequência, a sociedade), despido do verniz de felizes para sempre que nos vendem continuamente. O espetáculo não nos mostra o deus benevolente, mas sim os sacrifícios de sangue feitos em sua honra.

O efeito é conseguido, além do poderoso texto de Lessing, pela discreta direção de Leonardo Moreira, que apenas constrói a estrutura que projetará a dramaturgia e a impactante atuação de Amanda Lyra, também idealizadora do projeto. Ao optar por um registro despojado, quase de negação à atuação, Lyra borra os limites entre si e a personagem, o que faz bastante sentido: ela não está falando de uma personagem ficcional, mas sim das mulheres – incluindo ela mesma. Outras estratégias que reforçam essa leitura são o fato de a atriz sair da plateia para o palco no começo do espetáculo, como se, caso ela não tomasse o palco para si, qualquer outra mulher no teatro poderia reivindica-lo e contar uma história similar; e o inteligente recurso de alternar entre a 3ª e a 1ª pessoas ao longo da narrativa. Lyra, assim, nos oferece um olhar geral, nos permitindo analisar a situação à distância para depois nos aproximar o máximo possível dela.

A cenografia de Marisa Bentivegna reforça a sensação de estranhamento e claustrofobia propostas pelo texto, ao mesmo tempo em que sugere que a protagonista sempre esteve presa no quarto que dá nome à peça – assim como sempre esteve presa ao patriarcado, à maternidade compulsória, à expectativa da sociedade etc.

Brilhantemente executado, Quarto 19 é um espetáculo difícil, que cobra do espectador uma reavaliação das suas relações intra e interpessoais, algo que requer tempo, coragem e sensibilidade, e que vai muito além do simples aplauso por cortesia.

Quarto 19
Concepção e Atuação: Amanda Lyra
Direção: Leonardo Moreira
Preparação Corporal: Tarina Quelho
Iluminação e cenografia: Marisa Bentivegna
Fotos: Cris Lyra
Tradução: Amanda Lyra
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produção: Aura Cunha | Elephante Produções Artísticas

Serviço
Até 15 de abril. Quinta a sábado, 20h30 (não haverá sessão no dia 14).
Ingressos: R$ 25,00 (inteira). R$ 12,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência). R$ 7,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência).
Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195

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