CRÍTICA: “QUASE UMA ADAPTAÇÃO” E O ELOGIO À RESISTÊNCIA

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

Quase_uma_Adaptacao_-_Nossa_Companhia_-_Joao_Valerio__6SÃO PAULO – Um espaço habitado é invadido implacavelmente. Pouco a pouco, aqueles que ocupam este espaço vão perdendo território para os invasores, e com ele vão perdendo suas forças, suas possibilidades de futuro e as memórias do passado.

Este cenário é a base tanto de Casa Tomada, de Júlio Cortázar, quanto de Quase Uma Adaptação, (quase uma) adaptação de Lucas Lassen para a obra do escritor argentino. Investindo na metalinguagem, o novo espetáculo da Nossa Companhia é uma melancólica visão sobre o ofício teatral contemporâneo.

Na trama, uma companhia tenta encenar o texto de Cortázar, quando o próprio teatro onde trabalham começa a ser tomado. Não só a área interna – camarins, lobby, etc – é invadida, mas a área externa se muda com velocidade alarmante. De uma hora para outra, por exemplo, o estacionamento do teatro se transforma num prédio de dezenas de andares, com centenas de moradores.

O mundo retratado na dramaturgia de Lassen é, portanto, um mundo onde o teatro não é valorizado, onde o progresso não se acanha em atropelá-lo. Trata-se do nosso mundo. Iniciada em 2014, a pesquisa de Lassen e da diretora Tatiana Bueno começou a tomar corpo a partir de dois eventos significativos: as comemorações do centenário de Cortázar e o Ato Público de reconhecimento ao registro de vinte e dois coletivos teatrais como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade de São Paulo. Do ponto de intersecção entre a história de Cortázar e o momento pelo qual o teatro em São Paulo passa – e o que isto significará no futuro – surge a reflexão do espetáculo. Desinteressada em apresentar soluções, apontar o dedo ou vitimizar a classe artística, a montagem é mais um desabafo, uma tentativa de compartilhar os problemas comuns a todos aqueles que fazem teatro, do macro – falta de verba, falta de estrutura, falta de apoio – ao micro – picuinhas de elenco, bloqueios criativos, nervoso da estreia.

É, no fundo, um elogio à resistência daqueles que trabalham na manutenção do fazer teatral, dos que produzem e se apaixonam apesar das dificuldades, das dores e de todos os contras.

Atentos aos problemas do ofício teatral de agora, Lassen (com uma dramaturgia elegante) e Bueno (virando-se bem com poucos recursos) são sensíveis o bastante para transformá-los em poesia. No elenco, Alexandra DaMatta, Everson Romito e, principalmente, Bia Toledo demonstram potencial para se tornarem melhores à medida que a temporada for seguindo e os personagens forem assentando melhor – e quanto mais conseguirem brincar com as mudanças de tom da “peça dentro da peça” para o “mundo real”, mais o espetáculo tem a ganhar.

Assim, Quase Uma Adaptação mostra-se sintonizado aos tempos atuais, como um lembrete à plateia – seja classe artística ou não – de que o fazer artístico continua muito trabalhoso, mas também indiscutivelmente belo.

QUASE UMA ADAPTAÇÃO
Texto:
Julio Cortázar
Dramaturgia: Lucas Lassen
Direção: Tatiana Bueno
Elenco: Alexandra DaMatta, Bia Toledo e Everson Romito
Preparação de Elenco: Inês Viana

Serviço
De 12 de fevereiro a 20 de março. Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h. A partir de 14/02, todas as apresentações terão tradução em Libras.
Entrada gratuita.
Biblioteca Mário de Andrade. Rua da Consolação, 94. Metrô Anhangabaú.

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