CRÍTICA: A REBELDIA DE “RENT”

Fernando Pivotto para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

rent1SÃO PAULO – Montagem do clássico musical de Jonathan Larson acompanha a vida de um grupo de pessoas às voltas com a arte, a miséria e a AIDS. A temporada segue até dia 21 de dezembro e recomeça em 10 de janeiro, terças e quartas, às 21h no Teatro Shopping Frei Caneca.

Uma das coisas a se ter em mente ao assistir à montagem de Rent dirigida por Susana Ribeiro é que não se trata de um espetáculo que segue ipsis litteris as marcações originais da Broadway. Não é, portanto, uma franquia, mas sim uma emancipação da matriz, uma reinterpretação do material fonte que tenta preservar o núcleo da tragédia de Jonathan Larson ao mesmo tempo em que tenta injetar sua própria voz na obra.

É compreensível e legítimo que aqueles que esperavam uma adaptação fiel do clássico estadunidense se frustrem ou, ao menos, estranhem as liberdades tomadas pela equipe criativa. Afinal, mesmo que com as melhores intenções do mundo, mexer num musical que ocupa o coração de milhares de fãs há duas décadas é sempre comprar uma briga – e a coragem da direção, produtores, elenco e demais artistas em comprar essa briga é digna de elogios. Contudo, passado o estranhamento inicial, fica claro que a mensagem de Larson continua presente e valorizada pela encenação, pela interpretação e, sobretudo, pela versão de Mariana Elizabetsky, que sublinha a dualidade força/fragilidade da vida, presente nas canções originais.

Ao mesmo tempo em que é respeitosa – à sua maneira – ao material clássico, a montagem ainda consegue discutir questões que estavam presentes, embora sem tanto foco, nas versões convencionais da obra. Ao se preocupar igualmente com os casais centrais e com o coro de mendigos que ocupa o quarteirão, o espetáculo trata de temas como ocupação urbana, desigualdade social e a crueldade da miséria numa proporção muito mais ampla, falando de uma cidade inteira e não só do ano de alguns amigos.

A reflexão sobre o espaço público permeia todo o espetáculo, a começar pela feliz presença das barracas no cenário.  Utilizadas de modo inteligente por André Cortez, Susana Ribeiro e Kátia Barros, elas não só ocupam a periferia do palco, como se pra preencher o espaço do imenso palco do Teatro Shopping Frei Caneca, mas comentam ou complementam as cenas, acentuando a crítica social e tirando qualquer limpeza, beleza ou riqueza que porventura pudessem se infiltrar no imaginário da plateia por se tratar de um musical de tão grande porte.

No meio à grandiloquência, também cabe citar os momentos sutis e marcadamente teatrais, como o forro laranja que vira fogueira, ou o pó brilhante que representa o vício de Mimi.

Naturalmente, cenografia interessante e direção de movimento inspirada – com destaque para a empolgada reimaginação de La Vie Boheme e a bonita movimentação da cena do grupo de apoio à vida – não seriam tão funcionais sem um elenco competente. O coro, disparado a coisa mais interessante dessa nova montagem, sai-se particularmente bem ao entender sua importância para a transmissão da história, e contribui para a tragédia sem micagens ou sem tentar ofuscar os protagonistas. De todo o talentoso grupo, cabe destacar a sempre forte presença cênica de Arthur Berges, a variedade de Guilherme Leal e de Bruno Sigrist, e o deslumbrante timing cômico de Lívia Graciano – uma das melhores coisas de todo o espetáculo.

Quanto aos protagonistas, temos um equilibrado conjunto de atores, todos seguros em seus personagens, que não se abalaram mesmo com a eventual falha dos microfones na noite de estreia. Se o elenco parecia tão bem na primeira noite, é de se imaginar onde estarão lá pelo meio da temporada, quando a peça tiver mais tempo de carreira. Vale prestar atenção na construção da Mimi de Ingrid Gaigher, especialmente nos momentos em que ela cede ao vício. As ricas vozes de Thiago Machado, Max Grácio e Priscilla Borges também merecem uma escuta mais atenta.

Amparada por talentosos e apaixonados artistas, a reimaginação de Susana Ribeiro estabelece-se não só como mais um bom musical num ano particularmente inspirado, mas como uma das mais rebeldes encenações de Rent. E, em se tratando de um musical sobre rebeldia, isso é um acerto e tanto.

RENT
Texto: Jonathan Larson
Versão Brasileira: Mariana Elisabetsky
Direção: Susana Ribeiro
Direção Musical: Daniel Rocha
Direção de Movimento e Coreografia: Kátia Barros
Cenografia: André Cortez
Figurino: Fause Haten
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Iluminação: Wagner Freire
Elenco: Myra Ruiz, Bruno Narchi, Diego Montez, Thiago Machado, Ingrid Gaigher, Mauro Sousa, Max Grácio, Priscila Borges, Thuany Parente, Carol Botelho, Lívia Graciano, Zuba Janaina, Bruno Sigrist, Arthur Berges, Philipe Azevedo, Felipe Domingues, Guilherme Leal e Kaíque Azarias

Serviço
De 14 a 21 de dezembro de 2016, terças e quartas às 21h. Sessão extra dia 19, segunda, ás 21h.
De 10 de janeiro a 29 de março de 2017, terças e quartas às 21h.
Ingressos: R$ 100,00
Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569.

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