CRÍTICA: “ROCKY HORROR SHOW”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

rock-horror-show_8419SÃO PAULO – Com legião de fãs e aura de cult, musical inspirado nos filmes b de ficção científica e horror dos anos 1930 a 70 conta a história de Frank ‘N’ Furter, cientista alienígena que descobre como dar vida ao homem perfeito. Com direção da dupla Möeller e Botelho, o espetáculo fica em cartaz no Teatro Porto Seguro até dia 11 de dezembro.

Assim como a criatura de Frankenstein, Rocky Horror Show é composto de diversos elementos. Do cinema de horror e ficção científica das décadas de 30 a 70 (sendo King Kong, Drácula e os filmes de alienígenas de baixo orçamento dos anos 50 as influências estéticas e/ou dramatúrgicas que mais saltam aos olhos), ao rock dos anos 60 e 70 (sobretudo o glam rock), passando pela obra de John Waters, pelo humor de Monty Python, pela revolução sexual e evocando o conceito de húbris das tragédias gregas, a colcha de retalhos é ampla e o desafio do encenador é justamente dar coesão ao todo e equilibrar o respeito às referências com a necessidade de encontrar elementos originais a cada nova montagem.

Conseguindo dar harmonia a essa salada de referências, e encontrando uma eficaz tradução brasileira para o humor britânico da obra original, a dupla Möeller e Botelho entrega um musical energético, com ritmo afiado e tecnicamente primoroso, e um grato retorno à boa forma depois de uma fase pouco inspirada.

Com uma direção precisa, que valoriza a comicidade, e uma adaptação eficiente, que transporta bem para o português um texto fortemente calcado na cultura estadunidense e britânica – embora Damn It, Janet e Planet Schmanet ainda soem estranhas aos nossos ouvidos, The Sword of Damocles, I Can Make You a Man, Touch-a-Me , Floor Show e Science Fiction são notáveis –, o musical obtém sucesso ao criar uma estrutura que dá suporte ao seu elenco brilhante. Com tudo contribuindo a seu favor, é natural que os atores estejam em estado de graça.

Sempre talentosa, Bruna Guerin cria uma Janet interessante e que funciona bem junto do Brad de Felipe de Carolis – ambos sabem tirar proveito das frustrações sexuais de seus personagens e conseguem delinear bem o arco dramático pelo qual passam. Thiago Machado impressiona vocalmente, e Felipe Mafra é hábil ao dosar a ingenuidade e sexualidade de seu Rocky. Jana Amorim também merece destaque por fazer milagre com Colúmbia, transformando um dos personagens mais fáceis de serem interpretados de modo equivocado numa das melhores coisas do musical.

E há, é claro, Marcelo Medici. Se a escalação de um ator cisgênero para o papel de Frank ‘N’ Furter ainda é motivo de debates acalorados – tome-se como exemplo o fato de Adam Lambert ter declinado do personagem em favor de Laverne Cox na montagem recente do musical pela Fox americana -, há que se dizer que o ator está muito bem. Talentoso, experiente, carismático e com um tempo para comédia inegável, Medici cativa a plateia assim que entra em cena, consegue dar elegância até às piadas mais rasas do texto. A inteligência do intérprete é notável, de modo que o ator cria um vilão rocambolesco que, ainda assim, tem qualidades redentoras – o que é fundamental para o final do espetáculo.

A impressão que se tem é que a equipe está, de modo geral, orgulhosa do bom trabalho que executa, e que, principalmente, está consciente do legado que agora tem em mãos. É digno de nota o fato que, na sessão do dia 13, havia na plateia três pessoas fantasiadas de Riff Raff, Magenta e Colúmbia, tradição estabelecida em meados dos anos 80, quando a versão cinematográfica de Rocky Horror tornou-se cult graças às sessões da meia-noite em cinemas decadentes, onde os espectadores faziam cosplay e respondiam às falas do filme.  Honrando a costume convencionado pelo original e respeitando o comprometimento dos fãs, o elenco foi elegante ao convidar os três ao palco para dançar a reprise de Time Warp.

Ainda que tudo seja praticamente irretocável na montagem, cabe apontar que ela pouco acrescenta ao debate acerca da fluidez de gênero e da liberdade sexual, temas caros a um musical cujo mote é “não sonhe, seja”. Ao jogar seguro e correr riscos calculados, esta versão de Rocky Horror conquista plateias maiores, mas abdica de um certo caráter transgressor que a tornaria histórica.

Rocky Horror Show

De Richard O‘Brien.
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho.
Com Marcelo Medici, Bruna Guerin, Felipe De Carolis, Gottsha, Thiago Machado, Jana Amorim, Nicola Lama, Felipe Mafra, Marcel Octávio, Vanessa Costa e Thiago Garça.
Texto, Música e Letras de Richard O‘Brien.
Versão Brasileira: Claudio Botelho.
Direção: Charles Möeller.
Coreografia: Alonso Barros.
Cenografia: Rogério Falcão.
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros.
Visagismo: Beto Carramanhos.
Design de som: Ademir Moraes Jr.
Coordenação Artística: Tina Salles.
Direção de Produção: Beatriz Braga.
Produção Executiva: Edson Lopes.

Serviço:
De 11 de novembro a 11 de dezembro – Sextas e sábados, às 21h e domingos, às 19h.
Ingressos: R$ 120,00 plateia / R$90 frisas / R$ 50,00 balcão.
Classificação: 12 anos.
Duração: 90 minutos de duração + 15 minutos de intervalo.
TEATRO PORTO SEGURO. Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.

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