CRÍTICA: “ROMEU DE JULIETA”, OU SOBRE AMAR E EXISTIR

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Núcleo Experimental se apropria do clássico de Shakespeare para discutir gênero, afetividade e teatralidade. O espetáculo segue em cartaz na sede do grupo até 05 de fevereiro.

Quando eu fui assistir à sessão de Romeu e Julieta – De almas sinceras a união sincera nada há que impeça, sabendo que um dos pilares da peça era a questão do gênero e de como ele impacta na afetividade, três casos recentes de violência contra LGBTs fervilhavam em minha mente. Quando sentei para escrever esta crítica, poucos dias depois, já contava cinco casos de violência. Tenho certeza que até o texto ser publicado, já estarão sendo noticiados outros casos e que, quando você for ler isto, o número já terá aumentado.

Como bem se sabe, Romeu e Julieta é sobre um amor tornado impossível graças ao contexto em que vivem os apaixonados: é a imposição social que barra o exercício do amor dos jovens enamorados de Verona.  Da mesma forma, como atestam as notícias atuais sobre casos de LGBTfobia, existem, ainda hoje, regras, crenças e convenções que atravessam a afetividade e a expressão da sexualidade das pessoas. Consciente das interseções entre a história do século XVI e a de agora, o Núcleo Experimental dá menos enfoque à rixa entre Montéquios e Capuletos e estabelece um interessante jogo de alternância entre os intérpretes do casal central – dois homens e duas mulheres fazem as vezes de Romeu e Julieta, estabelecendo três casais, um hetero e dois homoafetivos – para permitir que a plateia preencha as lacunas sobre qual o impedimento em voga.

A alternância dos casais revela os dois pontos fortes da montagem dirigida por Zé Henrique de Paula: a elegante crítica social através da estética, e a forte teatralidade do espetáculo, sobretudo do primeiro ato.

Falemos primeiro da estética. A equipe criativa investe uma considerável energia estabelecendo um não-tempo e um não-lugar, a fim de ampliar o alcance de sua crítica, não restringindo-a apenas à São Paulo de 2017. Existem na cenografia acenos ao contexto nacional atual, da mesma forma que o figurino tem influências americanas e russas e os elementos contemporâneos mesclam-se com outros marcadamente datados (o príncipe do segundo ato tem um visual ancorado no final do século XIX e começo do XX; a briga de gangues se referencia diretamente aos anos 1980), da mesma forma que o figurino que se propõe como roupa de ensaio também dialoga com algo mais teatral.

Estabelecida neste contexto atemporal e a-local (onde, portanto, o risco aos amantes se mantém em qualquer época e localidade), a opção de ter personagens femininos e masculinos interpretados alternadamente por atores e atrizes discute o papel do gênero tanto no modo como os personagens se comportam, quanto no modo como os lemos. A Julieta de Cícero de Andrade pode ser compreendida como uma mulher interpretada por um homem, mas também pode ser percebida como um homem afeminado, fomentando a discussão sobre heteronormatividade e o modo como performamos o gênero (qual é o gestual de um homem? Qual seu timbre de voz? A quem um homem pode direcionar seu amor?).

O mesmo vale para a fluidez com a qual Natália Foschini transita entre personagens tão diversos quanto a mãe de Julieta e Romeu – inclusive deslocando-se de um para o outro com notável agilidade, indo de uma cena corriqueira da Senhora Capuleto para uma cena de tensão emocional de Romeu com bastante graça. Ver o corpo desta jovem atriz em função da interpretação de uma mulher de quase trinta anos, e de um rapaz (ou de uma mulher) com metade da idade contribui para a reflexão sobre gênero e as possibilidades do corpo em diversas etapas da vida.

O livre fluxo entre os atores por papéis diversos, além de convidar o espectador para este debate, reforça a teatralidade do espetáculo. Ao propor que sua peça (ou, ao menos, o primeiro ato dela) se passa no ensaio entre alguns atores, o diretor estabelece um jogo cênico que não é só uma defesa da arte como expressividade (fazemos arte, afinal, porque acreditamos que, através dela, poderemos nos comunicar com o outro), mas também um bom exercício de imaginação.

Ao ressignificar uma bengala, um xale e uma máscara, o espetáculo nos convida justamente a tentar uma comunicação mais lúdica, através do poder de manipulação da realidade que a arte possui. Cenas como a da Rainha Mab, do baile de máscaras, das juras no balcão e, principalmente, a do encontro da Ama com Romeu, onde o elenco troca constantemente de personagens, de tempo e de espaço, são uma delícia por serem altamente teatrais, aparentemente simples mas dotadas de grande maturidade cênica.

A beleza e leveza do primeiro ato contrastam com o peso do segundo, quando o conflito se instaura. Perde-se o clima de brincadeira e ingenuidade, e em troca surge uma encenação num ritmo mais dilatado e tom mais trágico. O jogo também muda: não se tratam mais de atores ensaiando seus personagens, mas sim dos personagens propriamente ditos em ação.

É quase como se agora víssemos efetivamente a desgraça encarnada, como se o horror corrompesse a pureza, e a violência destroçasse a inocência. A alternância de atmosferas também demonstra que agora não há mais fingimento ou encenação: há, de verdade, gente morrendo por amar.

É sempre um soco no estômago ver essa jovialidade do começo subvertida pelo clima lúgubre e desesperançoso do final do espetáculo. Do mesmo modo, é sempre um novo soco cada vez que surge uma nova notícia de crime de ódio.

Há gente morrendo por amar. O que nos resta?

 

Romeu e Julieta – De almas sinceras a união sincera nada há que impeça
Texto – William Shakespeare
Adaptação e direção – Zé Henrique de Paula
Direção Musical e Preparação Vocal – Fernanda Maia
Preparação de Elenco – Inês Aranha
Assistente e Direção – Herbert Bianchi
Cenário – Zé Henrique de Paula
Assistente de Cenografia – João Paulo Oliveira
Figurinos – Zé Henrique de Paula e Cy Teixeira
Iluminação – Fran Barros
Projeto Gráfico – Herbert Bianchi
Coordenação de Produção – Claudia Miranda
Produção Executiva – Mariana Mello
Assistente de Produção – Laura Sciulli
Elenco – Cícero de Andrade, Danilo Rosa, Débora Peccin, Lucas Sanchez, Luiza Porto, Natália Foschini, Thiago Sak

Serviço
De 06 de janeiro a 05 de fevereiro. Sextas e sábados, às 21h. Domingos às 19h.
Ingressos: R$ 40,00
Teatro do Núcleo Experimental. Rua Barra Funda, 637.

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