São PAULO – Não sei vocês, mas eu não consigo parar de falar sobre polarização, sobre viver em bolhas (e a possibilidade de rompê-las, e a dificuldade de rompê-las, e a impossibilidade de rompê-las), sobre controle, sobre democracia, sobre futuros distópicos e, fundamentalmente, que fodeu. Esse tem sido um assunto recorrente aqui no trabalho, na mesa de bar com amigos, no jantar lá em casa, até no Tinder eu andei falando sobre isso. O teatro também tem ecoado esse momento (digo de uns dois anos pra cá), com um grande número de espetáculos se debruçando sobre esse tema: 11 Selvagens, atualmente em cartaz no CCSP, fala da brutalidade que permeia as relações humanas; 1984, atualmente no Teatro Porto Seguro, leva à cena a distopia de George Orwell; Mortos-Vivos: Uma Ex-Conferência , usa o zumbi como metáfora para a polarização. Até o elenco do estupendo Suassuna — O Auto da Barca do Sol improvisou uma cena sobre #elenão a pedido da plateia.

Isso só pra falar de espetáculos que estão em cartaz ou que terminaram temporada recentemente. Não é surpreendente, óbvio, a quantidade de peças que falem sobre esses temas (afinal, são assuntos que são pertinentes ao teatro, à literatura e ao cinema há pelo menos um século), ainda assim, é possível (e desejável) traçar relações entre o momento que vivemos e as produções cênicas que têm aparecido.

Assim, não é que Os 3 Mundos fale necessariamente sobre a situação sociopolítica atual, mas é tão fácil estabelecer paralelos entre o que acontece no palco e o que acontece nas ruas que é quase impossível não estabelecê-los — na sessão que eu assisti, gritos de “ele não!” somavam-se aos aplausos, por exemplo.

Com dramaturgia dos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, direção de Nelson Baskerville e idealizado e protagonizado por Paula Picarelli, Os 3 Mundos fala de um mundo fictício, desolado por alguma catástrofe, e dos seus sobreviventes: do alto de uma torre, Acônito manda no Mundo das Máscaras; do subterrâneo dos metrôs, Lachesis lidera o Culto da Serpente. Um se aproveita da ignorância e do medo e usa da força; a outra usa da disciplina das artes marciais e da repetição de um discurso contraditório que, de tanto ser dito e ouvido, é assimilado como verdade absoluta e resposta para as angústias do mundo. A violação do corpo de um lado, a violação da mente do outro.

Partindo dessa premissa básica, dos regentes distópicos que manipulam e oprimem pelo poder, a dramaturgia subverte algumas expectativas, como a definição de mocinhos e vilões, e potencializa sua força ao colocar todos os personagens como cativos dentro de alguma estrutura: Acônito sabe que não há porque diminuir a pressão sobre seus subalternos porque ele é só mais uma engrenagem na máquina, assim como aqueles em quem manda; Lachesis foge da posição de líder apenas para voltar ao mesmo status — dessa vez, contra sua própria vontade.

O espetáculo versa sobre a opressão pelo poder. Isso significa, em alguma medida, que fala sobre pessoas que oprimem pelo poder, mas também em alguma medida sobre as pessoas que são oprimidas pelo poder — seja “o poder” entendido como “os poderosos” ou como o conceito mais abstrato de poder.

A estética de história em quadrinhos auxilia na atmosfera de fábula do espetáculo, quase como se essa visualidade tornasse mais febril o tom de pesadelo fantástico de Os 3 Mundos, ao mesmo em que todas as referências pop aproximam a peça do espectador (sobretudo o mais jovem, público mirado pelo Centro Cultural Fiesp há algum tempo). Em cena pode-se ver influência de Maus: A História de Um Sobrevivente e de Metrópolis, filmeclássico de Fritz Lang, além de referências a Bruce Lee — e, por tabela, a Kill Bill. Mas também dá pra ver um pouco de Akira, um pouco de Heavy Metal , um tiquinho de Sin City, bastante de Snowpiercere ficar pescando essas citações é também uma das graças do espetáculo.

Equilibrando a seriedade do tema com a chuva de referências e trabalhando para aproximar o teatro dos quadrinhos, Baskerville faz um trabalho excelente, não só por criar estratégias interessantes para manter o truque funcionando (como posicionar o ator no lugar certo, como direcionar o olhar o espectador pra lá ou pra cá, como sincronizar os elementos mecânicos, como colocar e tirar elementos físicos do palco) mas principalmente por encontrar momentos de fricção entre teatro e quadrinhos (o uso assumido de dublês em cena, por exemplo, que cria um estranhamento metalinguístico interessante).

Se a pesquisa visual é incrível (seja pela inventividade, seja pela audácia, seja pelo primoroso trabalho de ilustração de Guazelli, de animação de BijaRi e de luz de Marisa Bentivegna), também cabe dizer que às vezes há o efeito pelo efeito: as lutas são coreografadas de tal jeito que não geram a tensão desejada, o cenário virtual às vezes fica repetitivo ou só tem uma animação diferente porque esteve do mesmo jeito por muito tempo (os giros do cenário virtual na cena da arena, por exemplo). Um dos momentos mais interessantes, a hora em que os atores quebram a quarta parede, poderia levar a trama (e a estética) a lugares novos, mas o recurso é abandonado logo em seguida, para voltarem ao cenário virtual e às projeções — claro, até faz sentido que eles voltem à estética antiga logo no momento em que discutem o fato de serem engrenagens do sistema mas, ainda assim, é de se pensar que o recurso de desligar as projeções e assumir estarem num palco é muito poderoso pra ser usado assim, tão rápido e sem nenhuma consequência.

No elenco, Thiago Amaral sai-se particularmente bem, elaborando um Acônito caricato, patético e repulsivo (ótimo uso da voz, aliás), mas dando-lhe camadas quando necessário, sobretudo quando mostra a fraqueza e a solidão do personagem.

Talvez Os Três Mundos cause estranheza naqueles que procuram um teatrão convencional, onde a palavra e o trabalho stanislavskiano sejam priorizados — mas não é esse o tipo de espetáculo que ele deseja ser. O uso da tecnologia para aproximar o teatro outras formas de arte e de novas possibilidades é altamente benéfico, tanto como pesquisa continuada quanto para dialogar com novos públicos (ou pra dialogar de formas novas com públicos já conquistados). Há, claro, umas repetições aqui e ali, um efeito aqui e ali que talvez só esteja lá porque dava pra ser feito e não porque tinha que ser feito, mas isso não obscurece em nada a ambição do projeto e a qualidade daquilo que é apresentado.

Esteticamente (quaaaaaaaaaase) impecável e bastante pertinente no momento atual (como lidar com o conflito entre dois polos? como é ser submisso à força? como agir quando as verdades que te seduziam e faziam entender o mundo são na verdade mentiras?), Os Três Mundos é uma experiência bastante interessante.

 

Os 3 Mundos — Foto: Lígia Jardim

Os 3 Mundos

Temporada: Até 16 de dezembro de 2018
Horários: quinta a sábado, às 20h e domingo, às 19h
Local: Teatro do Sesi-SP — Centro Cultural Fiesp (Avenida Paulista, 1313 — em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Classificação Indicativa: 14 anos
Grátis. Reservas antecipadas de ingressos on-line pelo site www.centroculturalfiesp.com.br.

Ingressos remanescentes são distribuídos nos dias do espetáculo, conforme horário de funcionamento da bilheteria (quinta a sábado, das 13h às 20h30, e aos domingos, das 11h às 19h30). Agendamentos escolares e de grupos: ccfagendamentos@sesisp.org.br Mais informações: www.centroculturalfiesp.com.br.

História original: Fábio Moon e Gabriel Bá | Idealização: Paula Picarelli | Dramaturgia da encenação: Paula Picarelli e Nelson Baskerville | Produção: Daniel Gaggini | Assistente de Direção: Thaís Medeiros | Elenco: Paula Picarelli, Thiago Amaral, Tamirys Ohanna, João Paulo Bienemann, Alice Cervera, Artur Volpi, Rafael Érnica e Luciene Bafa | Ilustrações: Guazzelli | Projeção e Animação: Bijari | Música Original:Marcelo Pellegrini | Cenário e Iluminação: Marisa Bentivegna | Figurino:Marichilene Artisevskis | Coreografia e Preparação de Movimento: Luis Pelegrini | Direção de Produção: Katia Placiano | Design Gráfico: Dgraus | Adereços: Marcela Donato,Tetê Ribeiro e Silas Caria | Artista Residente:Luiza Magalhães | Fotos: Ligia Jardim | Direção Geral: Nelson Baskerville | Equipe Técnica de Arte Cênicas Sesi-SP: Miriam Rinaldi, Flavio Bassetti, Anna Helena Polistchuck e Daniele Carolina L. Ushikawa | Realização: Sesi-SP.

Fernando Pivotto para o Aplauso Brasil. O texto foi originalmente publicado no Perfil do Medium do crítico: https://bit.ly/2AmG4ko