Crítica: Submarino traz estética primorosa em montagem voltada para adolescentes

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"Submarino". Foto/crédito: Silvana Mattos
“Submarino”. Foto/crédito: Silvana Mattos

 

São Paulo – Montagens para o público infantil e adulto enchem os cartazes da cena paulistana. O mesmo não ocorre com os adolescentes. Raramente, eles têm um espetáculo montado e pensado para o universo deles. Sem opção, acabam frequentando as montagens adultas, quando a classificação etária assim permite. Mas em Submarino é diferente, já que a peça é feita por jovens atores e para trabalhar os seus dilemas e enfrentamentos. Aprender a conviver com a sombra da morte é a trama central da obra.

A peça é o resultado da primeira parceria entre o diretor Pedro Granato e o autor Léo Moreira (da Cia Hiato). O texto inédito foi criado para o projeto Conexões 2013, uma produção da Escola Superior de Artes Célia Helena em parceria com o Teatro Pequeno Ato. Submarino ficou em cartaz para o público no Teatro Cultura Inglesa – onde eu, esta crítica que vos escreve, assistiu ao espetáculo.

Em setembro, a peça reestreia em mais um evento para o público adolescente: Teatro Jovem do Centro Cultural De São Paulo. O espetáculo faz temporada no CCSP de 9 de setembro a 15 de   outubro. As apresentações acontecem as terças e quartas, às 20h. E que leve muitos jovens ao teatro, pois foi isso que eu vi de mais valioso na plateia do Teatro Cultura Inglesa no domingo em que assisti Submarino.

No saguão do teatro a fila de jovens já se aglomerava rumo à porta (as sessões não tinham lugar numerado). O cheiro de cloro era o assunto entre os presentes. Não se parecia ter dúvida de que encontraríamos uma piscina em cena. No entanto, o cheiro de cloro era só para compor a atmosfera de uma piscina e do cenário minimalista criado para Submarino. Um telão azul dimensiona a visão que temos quando abrimos os olhos embaixo d’ água. Uma grande plataforma também azul e uma escada típica de piscina nos  carregam para o imaginário de um clube.

Ali os adolescentes e estudantes da Escola Superior de Artes Célia Helena interpretam personagens com seus próprios nomes (Bárbara Sgarbi, Celina Vaz, Gabriel Tavares, Jonatan Justolin, Manuela Pereira, Matheus Polimeno, Pedro Monteiro e Victoria Martinez). Na história, um deles morre afogado enquanto saltava do trampolim (presente em cena). A partir do episódio, os adolescentes são obrigados a superar a morte. Em meio ao drama, questões típicas da idade, como namoros, apelidos, a fofoca, e etc aparecem como pano de fundo para mapear o papel de cada personagem.

É interessante como autor e diretor conseguem unir atores em construção para um espetáculo feito para uma fase de igual construção. Tanto é que a classificação etária indicativa de 14 anos me parece erronia. Deveria ser 12 anos, idade em que os nossos meninos e meninas já convivem com o que a peça apresenta. Até porque,  apesar de o tema tratado parecer pesado (a morte), é necessário e, no caso, cuidadosamente lapidado com tramas paralelas pertinentes.

Além disso, o exercício de imaginação que Pedro Granato proporciona para os jovens em cena e para a plateia é fundamental para o teatro atual, que frequentemente, se preocupa demais em trazer realismo. O que Pedro faz com o cheiro de cloro, com o telão, o trampolim, a escada, todo azul em cena e o som de piscina é usar nossos sentidos e trabalhar com aquilo que no nosso imaginário remete ao local. E dessa forma, ele atinge a realidade sem ser real.

Outro trunfo é como estão dispostas as raiais de uma tradicional piscina de clube. Embaixo da plataforma azul, são colocadas oito caixas, desenhadas com azulejos nas duas laterais. A frente e a parte de trás são abertas. Quando os personagens imergem na piscina, eles entram em uma dessas caixas e acendem uma luz para dar a impressão que estão mergulhando. A luz ilumina os atores e também evidencia os azulejos. Segundo Granato, o espetáculo contou com ensaios em piscinas reais para que depois se fosse achado uma solução. E funcionou.

Submarino tem uma estética e uma plasticidade incrível e carrega o mérito de buscar o público adolescente para o teatro e trazê-los em cena,  em conjunto com um diretor e um autor renomado.

FICHA TÉCNICA:
Direção, luz e cenário: Pedro Granato.  Dramaturgia: Léo Moreira. Figurinos: O grupo. Trilha sonora original: Pedro Monteiro. Assistente de direção: Gabriela Gama. Operação de Luz: Matheus Heck. Elenco: Bárbara Sgarbi, Celina Vaz, Gabriel Tavares, Jonatan Justolin, Manuela Pereira, Matheus Polimeno, Pedro Monteiro e Victoria Martinez.  Cenotécnico: Mateus Fiorentino. Realização: Escola Superior de Artes Célia Helena e Pequeno Ato.

Serviço:
Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro 1000 – Paraíso – Sala Adoniram Barbosa. Telefone: 3397-4002. Temporada: 9 de setembro a 15 de outubro – Terças e quartas, às 20h. Ingressos: R$10,00. Retirada de ingressos 2 horas antes de cada espetáculo. Duração: 50 minutos. Classificação: 12 anos. Capacidade: 631 lugares. ATENÇÃO – Dia 24/9 sessão popular a R$3,00. Apresentações gratuitas para o público nos dias 16/09 e 1º/10 – para escolas, grupos de teatro jovem, diretores e autores de teatro jovem para encontros e reflexões sobre o tema.

Centro Cultural São Paulo (CCSP)

Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso (Próximo às estações Paraíso e Vergueiro do metrô)

Informações ao público: 3397-4002

www.centrocultural.sp.gov.br

@CentroCultural | fb: CentroCulturalSaoPaulo

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*