Crítica: Tarantino à Heliópolis é um tapa na cara da sociedade

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Elenco  de "Vira-Latas de Aluguel" é  composto por pessoas ligadas à Heliópolis.  Foto de Weslei Barba)
Elenco de “Vira-Latas de Aluguel” é composto por pessoas ligadas à Heliópolis. Foto de Weslei Barba

SÃO PAULO – A peça Vira-latas de Aluguel faz uma  necessária crítica à elite e classe média da sociedade, que tratam a periferia – e todo o universo que ronda esse termo – como um espetáculo. Baseada no famoso filme Cães de Aluguel do Quentin Tarantino, a adaptação deixaria feliz o cineasta americano. A direção de Daniel Gaggini é certeira e deveria ser vista por muita gente. O espetáculo ainda tem outro trunfo: é feito por não atores e todos que atuam têm uma ligação com a comunidade de Heliópolis, cenário de parte do espetáculo.

O espetáculo Vira-Latas de Aluguel  brinca e zomba com estereótipos; realidade e ficção. É como no filme de Tarantino em que se baseia. A ironia já vem no nome: os “Cães” (parte do título original do filme do famoso cineasta) é trocado por “Vira-latas” – aí já tá está dada a pista: ali não terá “pedigree”. Para deixar mais claro, nada melhor do que ter como cenário uma comunidade real: no caso Heliópolis.

Mas fique tranquilo. Para você que só frequenta lugares tidos como seguros e, geralmente, anda protegido pelo vidro e ar-condicionado de um carro, não precisa ter medo. Uma van leva os espectadores até a comunidade e busca de volta. E surpresa: tudo isso faz parte do espetáculo, que já começa ali durante o passeio. Na van (que leva ironicamente as pessoas como um safári à comunidade) um programa sensacionalista é exibido.

Diego Renan faz personagem que satiriza apresentador de programa sensacionalista. Foto de  Weslei Barba
Diego Renan faz personagem que satiriza apresentador de programa sensacionalista. Foto de Weslei Barba

Ao melhor estilo de todos esses apresentadores que vemos à tarde na TV, o programa trata de crimes, roubos e situações da comunidade.

As opiniões do tipo “bandido bom é bandido morto” ou “vândalos” estão ali. O tom da sátira televisiva é a gritaria, como nas propagandas voltadas para as classes mais baixas. Até o consumismo é criticado. “A casa é humilde, mas a geladeira é top”, diz uma descrição sobre uma das personagens entrevistas pela atração.

Todos esses jargões são os reverberados por uma classe média e elite paulistana a todo o momento. Vira-Latas de Aluguel  é um reflexo, até bem real dentro do universo da representação,  de como se trata e enxerga a periferia. E a montagem não poupa ninguém: inclusive, os políticos e apresentadores de TV que se portam como altruístas.

Depois, a próxima parada é um bar de Heliópolis. Daqueles com todos os clichês, sabe? Até sinuquinha tem. Cenário ideal para uma comunidade da novela das oito. Mas não me cabe aqui ficar falando tudo que ocorre. Senão perde a graça, o efeito e a razão.

Mas, é importante dizer, ainda, que a peça tem como cenário principal o Cine Favela, projeto do seu Reginaldo – morador de Heliópolis, que faz caridade de verdade. Trabalha em prol da arte e de sonhos. Entre eles, comprar o espaço, hoje alugado, para instalar, por exemplo, poltronas como as de cinema.

No Cine Favela a encenação fica mais clara. Mas o jogo de verdade e mentira e de realidade com ilusão continuam postos. No lembrete sobre os cuidados a serem tomados no espaço, um toque ácido de ironia. Nada de “guarde seu celular” ou “à direita portas de emergências..” o aviso diz, entre outros alertas,  para que todos mostrem e filmem com seus celulares caros, assim fica mais fácil saber o que roubar depois. Maneira eficiente de manter os aparelhos eletrônicos desligados, não?

Na imagem os atores de "Vira-Latas de Aluguel" Cesar Filho e Bruno Ribeiro. Foto de Weslei Barba
Na imagem os atores de “Vira-Latas de Aluguel” Cesar Filho e Bruno Ribeiro. Foto de Weslei Barba

O Cine Favela é cenário de uma igreja, onde ladrões se encontram para descobrir qual deles é o dedo-duro em um caso de roubo que deu errado. Tal qual se passa na história de Tarantino, os bandidos “vira-latas” montam uma cena de suspense e crimes que sufoca a plateia.

Em uma lousa na parede mais uma ironia. Os dizeres aclamam para os fiéis pagarem o dízimo. “Quem não paga o dízimo em dia rouba de Deus”.

Tudo ali é ironia e representação. Mas de tão real nos deixa em dúvida: do que é e do que não é. Os atores Ana Carolina, Aga Orimaf, Bruno Ribeiro, Cesar Filho, Diego Renan, Eduardo Ferreira, James Calegari, Klaviany Cozy, Luciano José e PC Marciano (que merecem ter seus nomes mencionados um a um) de nada tem a ver com os atores da TV. Isto é, não são produzidos para parecerem; são personagem que passam uma realidade incrível para a história; que profissionais com DRT (registro de ator) não trariam.

Claro, que essa realidade também é simulada, já que nenhum deles são donos dessa história, que é inventada. Em mais um ponto Vira-latas de Aluguel põe realidade e ficção juntos.

Ora, alguns críticos, céticos ou niilistas podem argumentar que essa realidade toda de Vira-latas de Aluguel não serve para nada. As pessoas vão passar por lá, assistir a peça e, talvez, sintam um pesar; até pensem e tentem repensar como veem e tratam o imaginário da periferia. Mas, continuarão suas vidas com mesma indiferença de sempre.

No entanto, é assim na insistência e na arte que podemos mudar alguma coisa. Vira-latas de Aluguel é uma oportunidade única para quem busca abrir o olhar para todos os tipos de violência que a periferia sofre diariamente. É uma sátira de nós (que estamos acima na pirâmide social).

Sair do lugar de conforto é sempre bom e útil. Vira-latas de Aluguel é um tapa na cara da sociedade de deixar Tarantino com orgulho, aposto.

 SERVIÇO
Vira-latas de Aluguel – Estreia dia 25 de outubro, sexta-feira, às 20 horas na Comunidade de Heliópolis. Sede Cine Favela: Rua do Pacificador, 288 – CEP: 04235-020 – Heliópolis – São Paulo – SP. Contato Para Reservas: (11) 3141-1595 / 11 98483-8263 ou pelo e-mail: viralatasdealuguel@gmail.com. Capacidade: 21 pessoas. Temporada: Sábados e domingos às 20hs até 15 de dezembro. Volta em cartaz no dia 11/01/14 e finaliza a temporada no dia 09/02/14. Espetáculo GRATUITO.

Pontos por onde passa a van
Sesc Ipiranga:
Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga, às 20h
Metrô Sacomã: Saída Rua Bom Pastor. O espectador deve estar em um destes endereços às 20 horas.

 Ficha Técnica:
Concepção e Direção: Daniel Gaggini.  Daniel Gaggini. Texto: Processo Colaborativo feito a partir de vivências com os atores. Elenco: Ana Carolina, Aga Orimaf, Bruno Ribeiro, Cesar Filho, Diego Renan, Eduardo Ferreira, James Calegari, Klaviany Cozy, Luciano José e PC Marciano. Diretora Assistente: Luciana Rossi. Direção de Arte: Carol Bertier.Preparação Corporal: Mario Luiz.Preparação de Elenco: Caco Mattos. Trilha Sonora: Luciana Rossi e Daniel Gaggini. Recomendado para maiores de 16 anos.

Cartaz

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.