CRÍTICA: TECENDO O BORDADO DE UMA VIDA COM AS MEMÓRIAS COLHIDAS NUMA FRASQUEIRA

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Lembrei dos caminhos de crochê que a Vó Laura bordava quando me deparei com a gola de crochê, símbolo, sutil e delicado, a representar as diferentes fases em que a vida da personagem-título de Jacy, do Grupo Carmin (Natal-RN), – em cartaz até sábado (18), no SESC Pinheiros -, é trançada e retrançada, tudo a partir das miçangas/ memórias colhidas no interior de uma frasqueira que estava “no meio do caminho”.

Hamlet, o príncipe dinamarquês que protagoniza a tragédia do bardo inglês William Shakespeare diz que “há mais mistério entre o céu e a terra do que podemos imaginar”, ou, conforme o dito popular, “nada é por acaso”, ou seja, um dos integrantes do Grupo Carmin ter encontrado uma frasqueira contendo recibos, radiografias, uma agenda telefônica, entre outros prosaicos papéis, foi o elemento material agindo no mais metafísico dessa vida, a trajetória de Jacy.  E como numa inocente e, ao mesmo tempo, sofisticada moldura a esperar pequenos módulos de encaixe, a história de Jacy fez-se um bordado poético e um vigoroso acontecimento que emociona por múltiplas vias.

Feito jornalistas investigativos, a equipe do Carmin estabeleceu um vertical processo de pesquisa das pistas encontradas na frasqueira, bem como nas conexões por ela sugeridas, para erigir a vida de Jacy, de sua juventude aos seus últimos anos de vida. Uma mulher que passou pela Segunda Guerra Mundial, pela Ditadura Militar, em Natal (RN), Rio de Janeiro (RN), até terminar seus dias na capital do Rio Grande do Norte.

Seguindo premissas básicas do chamado “Teatro Documentário”, a utilização dos fatos pesquisados, reutilizados em fragmentos de arrepiantes cenas dramáticas que servem de alicerce poético ao espetáculo, mesclados aos dados históricos marcantes da trajetória de Jacy – o que torna evidente o quanto o ambiente socioeconômico em que vivemos é a base que nos modela – narrados pelos excelentes atores-rapsodos, trazendo, além do diálogo entre realidades passadas e fatos atuais – como no caso de Teorí Zavascki –, causando um imenso prazer estético quando os artistas vêm nos banquetear com saborosa teatralidade.

Ficha Técnica

Textos: Pablo Capistrano e Iracema Macedo / Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano / Direção: Henrique Fontes / Assistente de direção: Lenilton Teixeira / Consultoria: Marcio Abreu / Atores: Quitéria Kelly e Henrique Fontes / Videomaker:Pedro Fiúza / Designer de luz: Ronaldo Costa / Direção artística e cenografia: Mathieu Duvignaud / Trilha sonora original: Luiz Gadelha e Simona Talma / Coordenação de produção: Quitéria Kelly / Assistente de produção e desenhista: Daniel Torres / Designer gráfico: Vitor Bezerra / Fotógrafo: Vlademir Alexandre

Serviço
“JACY” – Com Grupo Carmin (RN)
TEMPORADA: De 19 de janeiro a 18 de fevereiro (quinta-feira a sábado), às 20h30
Duração: 60 minutos
Local: Auditório (3º andar) – 98 lugares
Classificação: Não  recomendado para menores de 12 anos
Ingressos: R$ 25,00 (inteira). R$ 12,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência). R$ 7,50 (credencial plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Ingressos online emwww.sescsp.org.br a partir das em 10/1, às 16h30,  e nas bilheterias das unidades do SescSP em 11/1, às 17h30. Venda limitada a quatro ingressos por pessoa.

SESC PINHEIROS
Endereço: Rua Paes Leme, 195.
Bilheteria: Terça a sábado das 10h às 21h. Domingos e feriados das 10h às 18h.
Tel.: 11 3095.9400.
Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 7h às 22h; Sábado, domingo, feriado, das 10h às 19h. Taxas / veículos e motos: Credenciados plenos no Sesc: R$ 12 nas três primeiras horas e R$ 2 a cada hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 18,00 nas três primeiras horas e R$ 3 a cada hora adicional. Para atividades no Teatro Paulo Autran, preço único: R$ 12 (credenciados plenos) e R$ 18 (não credenciados).
Transporte Público: Metrô Faria Lima – 500m / Estação Pinheiros – 800m

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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