CRÍTICA: A TEORIA DO CAOS DE “OS ARQUEÓLOGOS”

os-arqueologos-dsc_3371-bx-credito-felipe-stucchiFernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Depois de cumprir temporada no CCSP durante a Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, o espetáculo agora ocupa o Viga Espaço Cênico. Na montagem, dois narradores esportivos comentam o cotidiano de algumas pessoas: garotos brincando na rua, conversas entre pais e filhos, reencontro de amigos, as escolhas de um cachorro e dois arqueólogos do futuro que tentam compreender a sociedade do início do século XXI. A peça segue em cartaz às terças e quartas, até dia 30 de novembro.

Há algum tempo, uma colega educadora em um projeto onde eu também dava aula me explicava uma performance em que ela e seu grupo transformavam em poética a ideia de que viver é deixar rastros. De certa forma, somos, a um só tempo, a resposta àquilo que veio antes de nós e um trecho da pavimentação dos caminhos que serão percorridos depois que nos formos.

As trilhas que formamos também são compostas de produções e de reações às produções. Bem ou mal, este texto só existe porque atravessei a trilha que Vinícius Calderoni e Rafael Gomes deixaram com Os Arqueólogos.

Partindo de um recorte muito reduzido – as pessoas numa praça e ao redor dela – , Calderoni estuda as potências das relações humanas e o modo como nós apreendemos e resignificamos a realidade. Ao expor a discussão de um casal; ou um pai que ensina o filho a fotografar; ou um pai que consola o filho cuja criança morreu no parto, o dramaturgo tenta elaborar questões fundamentais da vida: o amor, a desilusão, a descoberta, a morte, o tempo, o medo, a incerteza, a incomunicabilidade e a necessidade de se conectar.

O texto também se demonstra consciente de si mesmo ao expor seus próprios procedimentos em cena: o pai que explica ao filho as vantagens da aproximação e do distanciamento do objeto retratado, explica exatamente aquilo que Calderoni e Gomes fazem durante o espetáculo, aproximando-se e afastando-se de seus personagens a fim de entendê-los ora como indivíduos, ora como um coletivo construído por diversas trilhas.

Com uma direção discreta, que dá espaço para a dramaturgia brilhar, Gomes ocupa o papel de ajustador, preocupado em azeitar os elementos (o cenário e a inspirada luz de Marisa Bentivegna, a trilha sonora pontual e o jogo de construção de personagens) que fazem funcionar o coral desenhado pelo dramaturgo.

Competentes, Guilherme Magnon e Calderoni conseguem dar corpo e voz a personagens de gêneros e idades distintos, sem cair no ridículo ou no caricato – embora, vez ou outra, saibam carregar nas tintas para fins cômicos. O grupo ainda é hábil ao transitar entre o humor e o drama sem grandes solavancos e com uma delicadeza admirável.

Afastando-se ainda mais dos objetos retratados, Vinícius Calderoni se pergunta como este emaranhado de linhas da vida será compreendido no futuro. Qual o valor de um registro como uma fotografia, um poema, ou uma peça de teatro daqui a um milênio? Qual é a essência de nossos tempos, qual é a nossa síntese inequívocaque poderá ser reconhecida sem sombra de dúvidas ou margem de erros no futuro? Como encontrarão nossos rastros depois de soterrados pela poeira? Assim, estudando o amor, o tempo, e os efeitos do tempo sobre o amor, o Empório de Teatro Sortido cria uma obra curiosamente otimista em relação ao futuro e à nossa imutável capacidade de amar.

OS ARQUEÓLOGOS 

Texto: Vinícius Calderoni.
Direção: Rafael Gomes.
Elenco: Guilherme Magon e Vinicius Calderoni.
Iluminação e Cenografia: Marisa Bentivegna.
Figurino: Daniel Infantini.
Direção de Produção: César Ramos.
Produtor: Gustavo Sanna.

Serviço
Até 30 de novembro. Terças e quartas, às 21h.
Ingressos: R$40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada)
Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323. Sumaré.

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