CRÍTICA: “TÉRMINO DO AMOR”

SÃO PAULO – Em cartaz até 30 de agosto na Oficina Cultural Oswald de Andrade, espetáculo disseca o esgotamento da relação de um casal e como o fim também significará o início de uma nova dinâmica entre eles.

Diz o ditado que o amor e o ódio são dois lados da mesma moeda. Embora redutivo, por simplificar a tessitura de dois sentimentos tão complexos e de ignorar toda uma gama de sentimentos que vão de um a outro, o dito apresenta um conceito aterrorizador: o de que amor e ódio são próximos e que é possível, com alguma facilidade, ir do primeiro ao segundo.

Término do Amor, de Pascal Rambert, segue a mesma premissa e apresenta o embate entre um casal cujo amor não só terminou como também se transformou em algo feio, violento e triste. Organizado principalmente como dois monólogos onde cada um dos ex-amantes expõe seus ressentimentos e desilusões, o espetáculo assume um caráter de disputa, de luta, onde cada personagem tem tempo para atacar o interlocutor com palavras cada vez mais agressivas, como numa esgrima verbal.

Embora o texto de Rambert seja bom, com sua crueldade e seu senso de humor, e haja potencial na proposta de expor o ciclo de violência que se inicia quando o amor termina, a montagem dirigida por Janaína Suaudeau por oras parece meio redundante. O fluxo contínuo de palavras ao qual cada um dos personagens tem direito durante a luta às vezes é repetitivo e dilui a força do discurso – afinal, é sempre cansativo ouvir alguém reclamando ininterruptamente por quarenta minutos sem que isso altere a dinâmica do espetáculo.

Claro que Término do Amor não se pretende um espetáculo realista, com começo, meio e fim do drama e unidade de tempo e ação – trata-se mais de uma exposição dos sentimentos e conflitos dos dois personagens; a dissecação do amor e o prazer sadomasoquista inerente ao término de uma relação – mas falta na montagem certa noção de causa e efeito. A estrutura estabelecida, onde um fala e o outro ouve cria um distanciamento entre os dois, e resulta em certo delay na resposta do ouvinte, até porque não há possibilidade de contra-ataque.

O foco na violência verbal também limita um pouco as atuações, que se beneficiariam com mais nuances: existe o ódio e o rancor, claro, mas existem outros sentimentos e sensações – amor, inclusive – que são abordados muito rapidamente. Carolina Fabri, talvez por ser a primeira a ser atacada, consegue delinear um arco mais interessante, que vai da surpresa à tristeza e daí à raiva, dando mais lastro à sua interpretação.

A montagem também se sai bem quando transcende a palavra – tentativa arriscada, devido à verborragia do texto de Rambert, mas muito bem-vinda – e apresenta propostas que apelam mais à subjetividade. O início, com uma partitura corporal de algo que representa, ao mesmo tempo, os dois fazendo sexo e brigando, dá o tom do que se seguirá e desafia o espectador a perceber as nuances, contradições e confusões da relação dos dois. O uso da bateria ao vivo como metrônomo/mediador/provocador da discussão também é interessante e tira do texto a total responsabilidade de orientar todo o resto do espetáculo.

Com uma boa dramaturgia, que ecoa um pouco o Closer de Patrick Marber e outros textos europeus contemporâneos sobre a falência das relações interpessoais, Término do Amor pode se comunicar melhor com aqueles que se interessem por montagens que valorizam a palavra. Não é, naturalmente, um demérito da encenação ou do texto, claro, mas é um dado a ser levado em conta.

Término do Amor.
Texto: Pascal Rambert.
Tradução: Janaína Suaudeau com colaboração de Clara Carvalho e Eloïse Morhange.
Direção: Janaína Suaudeau.
Elenco: Carolina Fabri, Gabriel Miziara e Pedro Gongom (bateria).
Provocadora: Malú Bazan.
Drumaturgy (interação musical dramatúrgica): Vinicius Calderoni.
Cenografia: Ulisses Cohn.
Iluminação: Aline Santini.
Figurinos: Isabela Teles.
Fotografias: Carla Trevizani e João Caldas.
Produção executiva: Larissa Barbosa.

 

Serviço:
Até 30 de agosto. Quartas e quintas às 20h.
Ingressos gratuitos.
Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)