CRÍTICA: “TUDO NO SEU TEMPO” BRINCA COM VIAGENS NO TEMPO PARA REFLETIR SOBRE A VIDA

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

Tudo no Seu Tempo -FernandaCouto, CynthiaFalabella - foto Ligia Jardim -bSÃO PAULO – A comédia, que esteve até dia 27 em cartaz no Teatro Jaraguá, utiliza a viagem no tempo para falar da vida de três mulheres ao longo de quarenta anos.

Ficções científicas, via de regra, falam do futuro e de temas caros à ciência para lançar luz sobre o homem contemporâneo. Blade Runner, por exemplo, fala sobre o que nos torna humanos – ou ainda, o que nos torna dignos de viver. Histórias sobre astronautas tentando sobreviver no espaço sideral nos lembram da fragilidade da nossa vida versus a força do nosso instinto de sobrevivência. E histórias sobre viagens temporais volta e meia nos perguntam o que seria de nossas vidas se pudéssemos alterar o passado.

É em torno deste questionamento que gira Tudo no Seu Tempo, com texto de Alan Ayckbourn e direção de Eduardo Muniz. Por trás da capa de comédia leve e descompromissada, que não hesita em lançar mão de uma ou outra piada fácil, está uma reflexão surpreendentemente tocante sobre como nossas vidas poderiam mudar se fossemos capazes de alterar alguns detalhes de nosso passado.

A trama gira em torno da prostituta Artemis (Cynthia Falabella, sempre ótima), que em 2036 é ameaçada de morte quando um programa dá errado. Tentando escapar do quarto de hotel onde está presa, acaba viajando para o mesmo local, em 2016, onde conhece Wanda (Fernanda Couto, que confere elegância ao espetáculo) a segunda esposa de seu cliente, que será assassinada por ele e por seu sócio dali a algumas horas. Cabe às duas não só sobreviver em suas linhas do tempo como também tentar salvar a primeira esposa (Bete Correia) em 1996.

Se a trama soa confusa, tanto a dramaturgia quanto a direção são hábeis ao fazer piada disso e ao frequentemente dar ao público pistas sobre o que está acontecendo. A dramaturgia de Ayckbourn, aliás, é um dos pontos altos do espetáculo, por apresentar um tema tão criativo e conseguir elaborá-lo de modo tão bem-feito. A direção de Muniz respeita e valoriza o texto original, embora os constantes (e demorados) blecautes para as trocas de cenário durante as passagens de tempo ralentem o ritmo do espetáculo. O elenco também merece destaque: Falabella e Couto constroem personagens carismáticas, e conseguem ser engraçadas e emocionantes sem esforço, e Joca Andreazza se vira bem com o pouco tempo de palco que tem.  Já Bete Correia e Edu Guimarães parecem um pouco deslocados, sem conseguir entrar muito na atmosfera proposta. Acabam entregando caricaturas, sem conseguir dar a seus personagens a profundidade necessária.

Ainda assim, o núcleo do espetáculo – a relação entre Artemis e Wanda – é interessante o suficiente para ganhar a atenção do público e as piadas, salvo algumas exceções, funcionam a contento. Mais do que isso: diretor e elenco conseguem entregar exatamente aquilo que o texto se propõe a ser – uma comédia descompromissada, mas com potencial para alimentar algumas reflexões sobre a vida e as escolhas que tomamos.

Tudo no Seu Tempo

TUDO A SEU TEMPO
Dramaturgia: 
Alan Ayckbourn
Direção: Eduardo Muniz
Com: Cynthia Falabella, Joca Andreazza, Fernanda Couto, Gustavo Trestini, Bete Correia e Edu Guimarães.

 

Serviço
De 23 de janeiro a 27 de março. Sextas às 21h30; sábados às 21h e domingos, às 19h.
Ingressos: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia)
Hotel Jaraguá – Novotel Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71. Bela Vista.