CRÍTICA: “UM BERÇO DE PEDRA” IMPACTA AO TRATAR DE DORES DA MATERNIDADE

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

"Um Berço de Pedra" em cartaz no Centro Cultural de São Paulo. Foto: Marcos Frutig
“Um Berço de Pedra” em cartaz no Centro Cultural de São Paulo. Foto: Marcos Frutig

SÃO PAULO – O espetáculo Um Berço de Pedra traz ao palco do Centro Cultural de São Paulo a força e o peso de ser mulher pelas dores da maternidade. A pobreza, o abandono, a perda, a guerra e o estupro estão nas poéticas e fortes histórias escritas por Newton Moreno. São cinco narrativas que intercalam espaços, tempos e mitologia. Entre os pesadelos do passado e do futuro que uma mulher pode carregar no ventre, o poder do amor e múltiplos caminhos. Em cartaz até seis de novembro, a peça oferece ao publico uma importante oportunidade de refletir questões sociais pelo feminino.

Ao entrar no teatro, a plateia já é apresentada à carga dramática potente em que será confrontada em Um Berço De Pedra. A música potente da Sinfonia das Lamentações, de Henryk Górecki invade o ambiente e é difícil desviar o olhar da areia seca que toma conta do palco. A atemporalidade pretendida por Newton ao juntar os textos ganha forma por meio desses elementos criados por William Pereira, responsável pela trilha, cenografia e direção do espetáculo.

No elenco são cinco mulheres: Lilian Blanc, Luciana Lyra, Agnes Zuliani Debora Duboc e Cristina Cavalcanti e um homem: Eucir de Souza. Ora em duplas, ora sós cada um carrega uma cena de forma forte. A peça é como um quadro que traz mães e filhos entre conflitos éticos e morais. Entre as agonias sociais e os deveres. Um Berço de Pedra não é uma peça para quem não busca impacto. Ali o teatro é pura reflexão. Um passeio as dores nossas – de mães de um mundo cheio de nuances incertezas e pesos.

Se é preciso pensar o lugar da mulher, dos excluídos, da pobreza, do conflito e dos crimes, Um Berço de Pedra faz isso sem medo, sem aliviar. Mas sem esquecer a poesia que há na dor. A aflição e a beleza em cena, contempladas pelas atuações e atmosfera se convergem.

São cinco histórias ligadas por intervenções cênicas de Debora Duboc, que também tem seu momento de protagonista em um dos textos.  No primeiro – chamado Canteiro – uma mãe procura, no jardim de outra mulher, seu filho desaparecido durante a Ditadura Militar. No segundo: Caminho do Milagre, uma mulher grávida trava um diálogo com um presidiário que a estuprou e engravidou. Em Medea, releitura do clássico de Eurípedes, uma nordestina fala sobre o crime contra o próprio filho e escorre a dor da exclusão social. Já no quarto texto, que tem o nome da peça – Berço de Pedra – as incertezas e maternidade de uma mulher em zona de conflito.  No último, com o nome de Tráfego, um filho é vendido no semáforo e a plateia é carregada pelas memórias desse episódio.

O espetáculo Um Berço de Pedra é um convite para quem espera um teatro além do entretenimento. Um convite a bons textos e atuações, com uma dramaturgia dividida em quadros – interligados e independentes, exercício para quem está no palco e para quem está na plateia.

 

FICHA TÉCNICA

UM BERÇO DE PEDRA

Texto de Newton Moreno

Direção e Cenografia: William Pereira

Elenco:

Agnes Zuliani

Cristina Cavalcanti

Débora Duboc

Eucir de Souza

Lilian Blanc

Luciana Lyra

 

Figurinos: Cristina Cavalcanti

Trilha sonora: William Pereira

Iluminação: Miló Martins

Programação Visual: Eduardo Reyes

Fotografia e Registro em Vídeo: Marcos Frutig

Projeções: Daniel Mantovani

Visagista: Leopoldo Pacheco

Cabelos: Paolo Biagiogli

Aderecista: Michele Rolandi

Divulgação: Adriana Monteiro

Operador de Luz: Fernanda Guedella

Operador de Som: Janice Rodrigues

Direção de Palco (estagiários): Andieli Gorci, Henrique Pina e Rodolfo Portal

Produção Executiva: Rafaela Penteado

Assistente de Produção Executiva: Paloma Rocha

Assistente de Direção de Produção: Adriana Florence

Direção de Produção: Leopoldo De Léo Junior

 

Serviço:

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO

Estreia de “Um Berço de Pedra”, de Newton Moreno

Direção de William Pereira

Estreia em 30 de setembro, sexta-feira, às 21h

Temporada:De 30 de setembro a 06 de novembro I  sextas e sábados às 21h e domingos às 20h

Rua Vergueiro, 1000 – ao lado da estação de metrô Vergueiro

Telefone  (011) 3397 4002  

DURAÇÃO: 90 minutos

RECOMENDAÇÃO ETÁRIA: 14 anos

SALA JARDEL FILHO

CAPACIDADE: 321 lugares

INGRESSO: R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia entrada

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!