Crítica: Um emotivo tributo á boemia paulistana

Afonso Gentil, para o Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com

BAR D' HOTEL
BAR D’ HOTEL

SÃO PAULO – Vendo Bar D’Hotel, que tem como cenário um barzinho do outrora chique e famoso Hotel Cambridge, no centro da cidade (Anhangabaú), um espectador alheio às despreocupadas noites de boemia dos anos 40/50 do século passado, pode ser tomado por sentimentos contraditórios.  De estranheza àquele universo de tipos peculiares, a princípio, e de encantamento provocado pelo repertório musical da “era do Rádio”, no restante da duração desse show melancólico, um emotivo tributo àquela época trepidante.

Lançado discretamente no início de maio, o espetáculo tem visto seu público aumentar, formado por jovens casais, certamente pelo repertório “dor de cotovelo” com clássicos como Canção da Volta, De Cigarro em Cigarro, As Rosas Não Falam e mais dezesseis pérolas que voltam para remexer corações e nervos dos eternos enamorados.

A despretensão marca o olhar do diretor Jair Aguiar, de sólido currículo no setor, o que contribui para a interação do público, desde a simpática e educada recepção. Mas, curiosamente, o que é o maior trunfo da ambientação da cena – que ocupa literalmente o espaço do bar, de alto a baixo inclusive – passa a ser o maior empecilho para que se usufrua inteiramente a atuação do elenco, pela existência de duas colunas centrais encravadas num balcão circular.

BAR D' HOTEL
BAR D’ HOTEL

O quarteto central de intérpretes (atores que cantam) entrega-se com vibrante energia e derramada emotividade às canções e ao texto: Cibele Troyano, uma revelação a saudar; a sempre ótima Wilma de Souza, impagável e até irreconhecível como Nini, a amante argentina; e os desembaraçados defensores do naipe masculino da trama, Sérgio Carrera e Antonio Netto. Os coadjuvantes se esgueiram quase sempre pelo espaço e, em  outras vezes participam do canto e da dança, como figurantes sem direito à voz falada.

O texto de Ricardo Leitte é mais bem-vindo quando em pequenas doses. Na 2ª. metade, quando a trama passional assume o conflito, revela-se verborrágico e ladrão do tempo musical, apesar da eficiência do elenco básico.

Por último, mas não menos importante, o trabalho do veterano Márcio Tadeu na criação de figurinos expressionistas, provocando a necessária estranheza, lembrando sombras do passado, fantasmas, talvez, de uma boemia assumidamente contestadora de um quotidiano sem cor.

BAR D’HOTEL resulta em poético retrato de um tempo que, obviamente, não volta mais. A não ser quando uma trupe como a Cia das Artes resolve desenterrar um passado cheio de charme, não tão distante.

BAR D’ HOTEL

Bar d’Hotel Cambridge – Rua João Adolfo, 118,  Centro, próximo Metrô Anhangabaú – fone 2639-3098- 6as ás 21h –sábados 21h – domingos 19h – Duração  7O minutos – Ingressos R$40,00 (inteira) Ed R$ 20,00 (meia) – Ingressos no local – Estacionamento R$ 18,00. Temporada por tempo indeterminado  – 12  anos.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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