CRÍTICA: UM OLHAR PERTURBADOR PARA A SOLIDÃO

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com.br)

SEM TÍTULO
SEM TÍTULO

SÃO PAULO – Creio ser relevante descrever minha ida ao espetáculo Sem Titulo, de Ariel Farace – que o Coletivo Labirinto, sob direção de Wallyson Mota, apresenta no Espaço Elevador Panorâmico apenas às segundas-feiras, 21h – e as circunstâncias que a permeiam, para que o leitor possa entender mais claramente meu ponto de vista nesta crítica.

No workshop Olhares Críticos que ministro nas tardes do mesmo dia, falamos que um dos modelos da crítica teatral se propõe a estabelecer uma análise entre o conteúdo da peça e o espaço social onde se dá sua representação.

Tive algumas dificuldades em estabelecer tal conexão, apesar das placas acrílicas que compõem o cenário trazerem desenhadas plantas baixas representando a kitnet em que cada um dos três personagens vive  e os quarto-e-sala são característicos da região central da cidade. Talvez seja porque o clima de Sem Título seja o de uma estufa protetora, distanciando-se, assim, da camada caótica e violenta da urbe para fixar-se no indivíduo.

O insight veio quando me lembrei do comportamento de nós, espectadores, na antessala enquanto esperávamos o início  do espetáculo: os nossos olhos estavam fixos nas telas de nossos smartphones, ensimesmados na redoma protetora que preserva o indivíduo das decepções que podem advir da relação real com o outro e que, ao mesmo tempo, nos isola das relações interpessoais, nos confinando nas simbólicas plantas baixas inscritas nas três placas que compõem o cenário e que, quando acesas, parecem a mesma tela de smartphone em que estávamos fixados e confinados em nós mesmos.

Saí do espetáculo perturbado, cheio de questões sobre o por que deixamos a virtualidade das redes sociais, a facilidade das comunicações via telefonia e wifi, enfim, pela série de ferramentas que nos permitem interagir virtualmente, tornaram-se protagonistas de nossas vidas, substituíram a urgência do encontro, da conversa no bar. Sim, é de assustar. Sim, é preciso reagir. Tudo isso advém do rico universo poético proposto, feito um grito silencioso, pelo argentino Ariel Farace em Sem Título.

SEM TÍTULO
SEM TÍTULO

A concepção de Wallyson Mota, com pausas alongadas em contrapartida à agilidade rítmica nos evasivos e sincopados diálogos – executados com talento, compreensão, uma energia sobreposta ao falado em que o silencio e as intenções dizem mais que as palavras, por Abel Xavier, Carol Vidotti e Paula Zaneti –, enfatiza o labirinto de solidão em que os personagens estão agrilhoados.

Uma gratificante surpresa conhecer a seriedade do trabalho do Coletivo Labirinto.

FICHA TÉCNICA

Texto: Ariel Farace

Tradução: Paloma Vidal

Direção: Wallyson Mota

Elenco: Abel Xavier, Carol Vidotti e Paula Zaneti

Música: Rafael Zenorini

Iluminação: Paula Hemsi

Cenário e Figurino: Os Demolidor e as Pantera

Fotos: Renan Lima

Produção: Carol Vidotti e Wallyson Mota

 

SEM TÍTULO

Temporada: Até 10 de novembro de 2014. Segundas-feiras, às 20h30. Duração: 60 minutos.

Recomendação etária: 12 anos

Preços: R$ 30,00 (inteira); R$ 15,00 (meia entrada para estudantes, professores da rede pública de ensino, classe artística, + 60 anos); R$ 10,00 (moradores do Bixiga – necessário levar comprovante de residência).

Local: Espaço Elevador. Lotação: 50 lugares.

 

Espaço Elevador

Rua Treze de Maio, 222 – Bixiga

Tel: 11 3477-7732

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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