CRÍTICA: UMA “GATA” IMPERDÍVEL

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

RIO DE JANEIRO – O senso comum tem a tendência de encontrar seu bezerro de ouro para entregar seus problemas ao altar dos sacrifícios e se livrar dos questionamentos que verticalizam a questão. É mais confortável culparmos o extremismo islâmico como o único motivo que levou Omar Matee ao crime na boate gay em Orlando. Mas a que religião culpar pela crueldade aplicada aos professores gays baianos? Líderes da extrema direita, como Jair Bolsonaro, e da bancada evangélica, como Marco Feliciano, também incitam à violência, intolerância, colocando a homossexualidade como doença curável. Mas estar à margem do comum, sentir-se incomodado ao presenciar que há diversas formas de amar, mesmo que sua formação, seja ela social ou religiosa, afirme ser um erro é, um dos pontos levantados em Gata em Telhado de Zinco Quente, de Tennessee Williams, cuja montagem do Grupo TAPA está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro.

gataDesejo, sedução, amor, ambição, invasão de privacidade, o jogo das aparências, são outros focos retratados na família de Gata em Telhado de Zinco Quente, reunida na propriedade rural do patriarca da família, Paizão (magistralmente interpretado por Zécarlos Machado).

A unidade de interpretação alcançada graças a competente mão do diretor Eduardo Tolentino de Araújo, indiscutivelmente um dos principais encenadores de sua geração, é tanta que personagens menores apresentam minuciosa curvatura de caráter. Aqui entra a força dramática do elenco formado por André Garolli, Augusto Zacchi, Bárbara Paz, Fernanda Viacava, Noemi Marinho e Zécarlos Machado.

gataelencpMãezona (em vigorosa criação de Noemi Marinho), por exemplo, oscila entre a aparente alienação, dando a impressão de ser alvo fácil das fofocas de Mae (Fernanda Viacava), e a lucidez plena quando contesta a divisão de poderes enquanto Paizão existir, “e até mesmo depois”. Ou o Gooper (minimalista criação de  André  Garolli) que, com sua simpatia e subserviência humilhante esconde sua ambição sem limites.

Uma das cenas de maior potência na montagem de Gata em Telhado de Zinco Quente é o “diálogo” que Paizão propõe a Brick (Augusto Zacchi) – e que este frisa que tais diálogos são na verdade solilóquios do pai – em que Zécarlos dosa com brilhantismo o tom patriarcal, de quem conhece, enfrenta e resolve quaisquer problemas, a um certo cinismo em relação ao “nojo da falsidade” que é a justificativa de Brick para seu alcoolismo. Paizão afirma que é preciso aceitar  a falsidade, que ela faz parte da vida de qualquer um, e    que Brick não necessita camuflar o que o incomoda bebendo. Aceitando a falsidade como parte do jogo de aparências da vida, soluciona seu problema.gata1

Numa  cena posterior, em que Maggie revela, como seu “presente de aniversário”, carregar em seu ventre um filho de Brick, sem que ele a desminta, é como se o pacto da “vida de aparências” estivesse, finalmente, selado e, se por ventura seu filho fosse homossexual,  seu sobrenome estaria protegido por esta capa.

Maggie é uma alma caleidoscópica esculpida com minúcia por Bárbara Paz, nela estão contidas as frustrações afetivas, o medo da decadência financeira, o desejo latente etc. Ela, em sua beleza exuberante (delineada pelo  belíssimo figurino de Glória Coelho), não entende e não  suporta que os olhos  de seu  marido estejam fora de si. Maggie é a gata em telhado de zinco quente, seu desejo e insistência são o whisky engatilhado em Brick.

FICHA TÉCNICA

Patrocínio: Banco do Brasil

Realização: Centro Cultural Banco do Brasil

Texto: Tennessee Williams

Tradução: Augusto Cesar

Direção: Eduardo Tolentino de Araujo

Elenco / Personagem:

Bárbara Paz / Maggie

Augusto Zacchi / Brick

Fernanda Viacava / Mae

Noemi Marinho / Mãezona

André Garolli / Gooper

Zécarlos Machado / Paizão

Figurino: Gloria Kalil

Cenário: Ana Mara Abreu e Alexandre Toro

Iluminação: Nelson Ferreira

Cenotécnicos: Jorge Ferreira e Denis Nascimento

Supervisão Musical e Sound Design: Marcelo Pellegrini

Produção Musical: Surdina

Hair Stylist: Ricardo Rodrigues

Fotos: Ronaldo Gutierrez

Arte: Rafael Branco

Produção Executiva: Paloma Galasso

Produção Geral: Cesar Baccan / Baccan Produções

Idealização: Grupo TAPA

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

 

 

GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE

LOCAL: Teatro I do CCBB – Rua Primeiro de Março, 66, Centro / RJ   Tel: 21 3808-2020

HORÁRIOS: de 4ªa domingo, sempre às 19h / INGRESSOS: R$20,00 e R$10,00 (meia entrada) /Funcionamento bilheteria: de 4ªf a 2ªf, das 9h às 21h / CAPACIDADE: 172 lugares / CLASSIFICAÇÃO: 14 anos / DURAÇÃO: 120 min / GÊNERO: drama / TEMPORADA: até 21 de agosto

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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