Crítica: Uma viagem para dentro de nós com Samuel Beckett

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Espetáculo "Oh os belos dias". Foto de Jean-Charles
Espetáculo “Oh os belos dias”. Foto de Jean-Charles

SÃO PAULO – Assistir Oh os belos dias, em cartaz no Sesc Santana, é como uma terapia inconsciente (ou consciente) da essência e das contradições que somos nós: bichos homens. Por meio de um casal que vive em um buraco (ou serão dois?), localizado em algum tempo-espaço não definido de clima desértico, os dois buscam um sentido para a vida.

Sim, o cenário é esse mesmo: uma espécie de cratera com duas saídas: uma para Winnie (interpretada pela atriz Sandra Dani) e outra para Willie (interpretado por Luiz Paulo Vasconcellos).

O cenário é bem curioso e até enigmático em certo ponto. E nisso combina com a história – uma história sem começo, meio e fim ou lugar definido. Um teatro feito na palavra, na filosofia da própria vida e em todos os pensamentos que podem ser transformados no falar.

Espetáculo "Oh os belos dias". Foto de Jean-Charles
Espetáculo “Oh os belos dias”. Foto de Jean-Charles

Mas antes de esmiuçar sobre a peça, voltemos ao cenário. Como ele fica no centro do palco, as plateias laterais (da esquerda e da direita) não têm uma visibilidade tão boa. Então, é importante ficar de olho na hora de comprar.

Agora, voltemos à peça. A tradução e direção de Rubens Rusche mostra como o artista é grande com Beckett. Ele que já dirigiu Katastrophé, Fim de Jogo, Beckettiana # 3 e Crepúsculo, comprova com Oh os belos diassua superioridade ao trabalhar com o autor irlandês.

A essência do teatro é a palavra. A interpretação segurada no falar e nos gestos (ainda que minimalistas). E é isso que Sandra Dani faz em cena. Coberta até a cintura (no primeiro ato), a atriz tem uma projeção de voz, uma clareza nas palavras e nos pequenos gestos (dentro do que é possível na condição) impressionantes.

Espetáculo "Oh os belos dias". Foto de Jean-Charles
Espetáculo “Oh os belos dias”. Foto de Jean-Charles

Já no segundo ato, Dani aparece coberta até o pescoço – imóvel – e ainda assim com desenvoltura pronuncia cada entonação. Apesar de ter dois atos o espetáculo não é longo. São 2h horas, sendo o primeiro ato maior do que o segundo.

Acontece que em cena, Dani fala muito. O tempo todo, quase sem parar ou respirar. Já o personagem de Luiz Paulo fala quando precisa. É mais prático como os homens em geral. Tem seu momento de glória, mas só no final da peça.

No resto, o que se vê é uma Winnie falante em meio a um cenário absurdo e sem lógica. É como se nós (espectadores) entrássemos na cabeça dessa personagem. Afinal, quem nunca se sentiu enfiado em um buraco, em meio a uma rotina? Se por um lado, Winnie aparece para a plateia vivendo em um buraco no meio do deserto, em suas palavras, ela é uma otimista irrefutável.

Sim, e dai vem o título: Oh os Belos dias. É possível alguém que vive nessa condição ver algo belo? Para mim, isso tem cheiro de ironia, mas a graça em assistir Beckett é essa: ele mexe com a nossa cabeça, e a aflição que mora em mim pode não morar em você.

E para provocar essa sensação, o texto larga mão de um recurso interessante: a mesma frase é proferida por Winnie e também por Willie em momentos diferentes, em ordens diferentes e jeitos diferentes. É um espetáculo para atentos, para quem gosta de sair do teatro com uma pulguinha atrás da orelha.

Difícil imaginar esse espetáculo em um só ato. É muito texto. E a divisão é precisa e necessária, quando entendemos que no segundo ato os dois personagens mudaram de posição.

Espetáculo "Oh os belos dias". Foto de Jean-Charles
Espetáculo “Oh os belos dias”. Foto de Jean-Charles

Os dois personagens de nome quase iguais na escrita e na fala é outro conhecido recurso do autor irlandês.

No espetáculo, Winnie parece viver sua rotina de forma feliz. Irritadamente feliz. Vive conformada vivendo um dia após o outro. Mas em alguns momentos, surge carente, irritada e até sem paciência. Mas, então, respira e desanda a falar.

No segundo ato, uma fala (que não sou capaz de reproduzir exatamente como foi dito) me chamou atenção. É quando Winnie diz a Willie que houve um tempo em que ela queria ajuda-lo, outro tempo em que ela o ajudou e que hoje ela não podia mais.

Quem nunca se sentiu assim, como Winnie? Quem nunca se sentiu enterrado em um buraco, sozinho e em um deserto? É possível com isso manter o otimismo?

Ficha técnica

Título: Oh os belos dias (Peça em 2 atos)

Autor: SAMUEL BECKETT

Direção e tradução: Rubens Rusche

Elenco: Sandra Dani e Luiz Paulo Vasconcellos

Cenografia: Ulisses Cohn

Cenoténico: Fernando Brettas

Iluminação: Wagner Freire

Figurinos e visagismo: Leopoldo Pacheco

Aderecista: Viviane Ramos

Assistente de direção: Cláudia Maria de Vasconcellos

Operação de luz: Alessandra Marques

Operação de som: Waldo Vicente

Fotografia: Jean-Charles Mandou

Vídeo e Programação Visual: Samuel Rusche

Produção executiva: Johanna Rusche

Coordenação de produção: Rubens Rusche

Duração: 110 minutos (2 atos, com intervalo de 10 minutos)


Serviço

Sesc Santana

Av. Luiz Dumont Vilares, 579

Tel.: 2971-8700

Metrô Jd. São Paulo

Sextas e Sábados às 21 horas 

Domingos às 18 horas

Ingressos: 25 reais

Recomendado para maiores de 14 anos

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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