CRÍTICA: “UMA VIDA BOA”

SÃO PAULO – Torturado, violentado e assassinado em 1993, o jovem Brandon Teena teve sua vida investigada em pelo menos duas obras audiovisuais famosas: o documentário The Brandon Teena Story, de 1998, e o filme Meninos Não Choram, do ano seguinte, premiado com o Oscar de Melhor Atriz graças à atuação de Hilary Swank no papel principal.

Conhecido como um dos piores crimes de ódio dos EUA, o assassinato de Brandon ainda choca por sua gratuidade, por sua brutalidade e por sua atualidade: a violência simbólica e física contra pessoas transexuais segue com índices alarmantes por todo o mundo, apesar da noção equivocada de que vivemos em tempos seguros e progressistas.

É claro que a questão de direitos humanos básicos para a comunidade LGBTQ tem tido avanços ao longo dos últimos anos, mas há ainda um caminho imenso a percorrer: segundo alguns estudos, o Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo (a média de vida de uma pessoa trans é de 35 anos), ao mesmo tempo em que é o país que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans ou travestis, o que mostra como ainda lidamos mal com o assunto. Some-se a isso o preconceito, a discriminação e a invisibilização às quais esta população está sujeita, e começamos a perceber a ponta do iceberg da problemática – e de que modo trabalhamos ou na manutenção ou na solução dela.

Embora não invista diretamente no aspecto sociopolítico e econômico da questão, o espetáculo Uma Vida Boa, em cartaz no Teatro Eva Herz até dia 30 de junho, lança um olhar bastante delicado sobre a vida de Brandon, sem cometer os erros grosseiros de exotificá-lo ou de fetichizar a violência sofrida por ele, armadilhas nas quais uma equipe criativa menos sensível ou responsável poderia cair facilmente.

O respeitoso texto de Rafael Primot consegue dar profundidade a B, personagem inspirado na figura real, tratando-o como uma pessoa complexa, com medos, contradições, qualidades, defeitos e conflitos (a cena em que B dá um presente para sua namorada, L, e a cena final, do sonho, são bons exemplos disso) e a direção de Diogo Liberano é sábia ao fugir do realismo documental já empregado nos filmes e que poderia limitar esta abordagem teatral: existe muito simbolismo em Uma Vida Boa, e esta estratégia é funcional por se comunicar com a plateia por vias não racionais. A progressão do conflito do espetáculo não se dá só pela exposição crua dos fatos e eventos, mas também pela construção de imagens e da instauração de atmosferas, artifícios que enriquecem o tecido sobre o qual a peça é bordada.

Cabe ainda citar o inteligente cenário de Brunella Provvidente, cujas marcações no chão expõem as proximidades e distâncias entre os personagens (uma solução bastante criativa para a cena em que B e L se conhecem e lentamente se aproximam, por exemplo) e a bela luz de Daniela Sanchez, um dos pontos altos do espetáculo – e bastante eficiente ao ressaltar as tensões da história.

Naturalmente, tudo isso não teria grande valia se o elenco não estivesse à altura e, felizmente, o trio formado por Amanda Mirásci (também idealizadora do projeto, ao lado de Pablo Sanábio), Daniel Chagas e Julianne Trevisol é bastante honesto em suas atuações. A interpretação brusca e vulgar de Chagas, que assumidamente constrói um vilão em cena pode, por um lado, planificar a figura de J, assassino de B, mas também serve para realçar as complexidades de L e de B – e, portanto, é uma boa escolha tanto do ator quanto do diretor.

Mirásci, por outro lado, investe nas texturas e contradições, construindo um B ambivalente, e a atriz consegue transitar bem entre os diversos estados que propõe. De todos os bons momentos de sua atuação, o monólogo em que B depõe na delegacia sobre o estupro sofrido é digno de nota por expor a fragilidade e humilhação do personagem sem cair no melodramático ou no sensacionalista.

Embora seja um ótimo espetáculo – e por mais brilhante que seja a atuação de Mirásci –, também é importante ver Uma Vida Boa a partir da problemática levantada pelo Manifesto Representatividade Trans Já. Com o tema “diga não ao trans fake”, o texto assinado pelo Movimento Nacional de Artistas Trans cobra da classe artística não só maior representatividade, mas melhores ofertas de trabalho. Apontando o recorrente apagamento de personalidades trans na mídia e a tendência a colocar atores e atrizes cisgênero (ou seja, que se sentem confortáveis com o gênero com o qual foram designados ao nascer) para interpretar personagens transgênero, o manifesto aponta como os palcos foram lugares excludentes para mulheres e pessoas negras em diferentes momentos da história, e embora hoje o uso do blackface seja execrado, ainda é tolerada a escalação de pessoas cis para papéis trans.

O que esta crítica pretende ao citar o Representatividade Trans Já não é falar de tessitura – ou seja, se um ator consegue ou não interpretar algum personagem. É óbvio que Amanda Mirásci faz um trabalho primoroso. O que se fala aqui é de quão significativo seria ter uma pessoa trans num projeto como esse, pensando tanto em representatividade quanto em inclusão no mercado de trabalho (e não escapa ao crítico o fato de ele ser uma pessoa cis falando desse assunto e de ele ocupar o mesmo lugar que a equipe criativa do espetáculo).

O palco – sobretudo numa peça que não se ancora no realismo, como essa – permite que o ator e a atriz possam expandir seus limites ao interpretar personagens distantes de si. É um aprendizado constante ser confrontado com os pontos de vistas de outros personagens e se submeter às circunstâncias de variadas dramaturgias. Atores e atrizes podem interpretar, pelo menos em teoria, tudo, e o exercício de refletir sobre Uma Vida Boa a partir das questões levantadas pelo Manifesto é justamente isso: um exercício. Não é objetivo desta crítica dizer que só pessoas trans podem interpretar pessoas trans, muito menos de que pessoas trans só podem interpretar pessoas trans – atores e atrizes podem interpretar, pelo menos em teoria, tudo.

O que se propõe aqui é que se pense como espetáculos podem agir, conscientemente ou não, na manutenção de situações pré-estabelecidas ou no estabelecimento de uma nova lógica tanto de fruição quanto de profissionalização.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Uma Vida Boa

Texto: Rafael Primot

Direção: Diogo Liberano

Elenco: Amanda Mirásci, Daniel Chagas e Julianne Trevisol

Diretora assistente: Dominique Arantes

Trilha sonora original: Diogo Ahmed Pereira

Iluminação: Daniela Sanchez

Figurinos: Bruno Perlatto

Cenário: Brunella Provvidente

Assistente de cenografia: Ana Machado

Direção de movimento: João Pedro Madureira

Preparação vocal: Verônica Machado

Projeto gráfico: Daniel Vides Veras

Design gráfico: Ale Pessôa

Diretor de Palco: Fernando Queiroz

Mídias sociais: Teo Pasquini

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Foto de cena: Renato Mangolin

Foto de divulgação: Sérgio Baia

Produção local: Andreia Porto

Produção geral: Amanda Mirásci

Idealização: Pablo Sanábio

Realização: Arrakasta Produções Artísticas

Serviço:
Até 30 de junho. Quintas e sextas às 21h. Há debate após o espetáculo.
Ingressos: R$ 40,00
Teatro Eva Herz. Conjunto Nacional, Avenida Paulista, 2073.