RIO DE JANEIRO: “Grandes festas para poucos escolhidos. Ou pequenos jantares só pra quem eles consideram grandes. De segunda a sexta pouca comida que a gente precisa fazer parecer que é muita. Sábado, muita comida e a gente tem que fazer parecer que é pouca. Lá na Dona Celina? Carpaccio, quiche, caviar; entregam tudo de bandeja. Na escola é salsicha, macarrão, leite em pó. Leite em pó.  Em casa de rico não tem leite em pó. Quer dizer, tem leite, e tem pó. Mas cada coisa no seu momento.”

Rose, em cartaz no teatro do Sesi, fala de desigualdade social. O texto de Cecilia Ripoll é um discurso engajado sobre o imenso vão entre os ricos e os pobres no Brasil. A trama expõe a fartura de poucos privilegiados e a escassez de muitos a partir da história de Rose, a merendeira de uma escola pública e como ela tem lida com a escassez de recursos de alimentos para fazer a refeição dos alunos. Para esse milagre da multiplicação acontecer, a merendeira, que aos finais de semana trabalha para uma família rica, desvia os alimentos dos jantares fartos para a merenda da escola. Trata-se de uma obra estética que promove a discussão e aciona o engajamento do espectador através de um distanciamento reflexivo diante dessa realidade social.

O texto tem uma estrutura épica, dividida em capítulos, com títulos que antecipam a ação e representam questionamentos da autora sobre os temas abordados na peça. Essa estrutura dramatúrgica garante que os atores possam mostrar como as ações de seus personagens são condicionadas ao meio social em que cada um é inserido. A exposição crítica da realidade, evidenciada especialmente nas falas da merendeira e de sua filha, é exacerbada em cena pelos atores quando direcionam ao espectador comentários, quase sempre irônicos e humorados, sobre a própria fala, a ação, a fala e o ato do outro personagem através de sua perspectiva. Cria-se dessa forma uma espécie de cumplicidade entre a cena e a plateia, evidenciada na busca pelo olhar crítico do público – uma espécie de justificativa – para que cada ato e pensamento dos personagens não sejam analisados sem perder de vista a sua realidade social e os meios que os fazem agir de determinada maneira. E, tanto o texto como a direção não deslizam em momento algum para um subjetivismo para explicar as ações. É a realidade concreta e uma visão política dela que traçam a trama das personagens e seus caminhos.

A direção de Vinícius Arneiro permite ao espectador ver o texto e as questões ali discutidas. O diretor usa um texto dialético e sublinha as distorções por ele discutidas numa encenação inventiva e muito bem humorada. O diretor reitera o absurdo da realidade que a autora expõe através de uma escritura cênica bastante limpa e focada no ator. A cenografia reitera isso através de um palco desnudado, com várias cadeiras de sala de aula dispostas em linha e nada mais. As cenas se dão entre essas cadeiras e o uso delas é feito com muita teatralidade permitindo aos atores circularem entre elas, andarem por cima, bagunçarem sua disposição inicial.

Nesse espaço se circunscrevem as atuações que repousam num tom mais farsesco, em corpos mais robóticos e rígidos como são as construções dos atores que fazem a patroa e o diretor da escola. Eles abusam do estereótipo colocando uma lupa no texto, na ação e no pensamento que cada um expressa a partir da realidade social que o cerca. Em contrapartida, a merendeira, sua filha e o filho da patroa, resultam de construções físicas menos rígidas, se circunscrevem na cena em tom mais humanizado e estabelecem bastante diálogo com o espectador através da quebra da quarta parede.

A discussão contida em Rose é muito séria e urgente. Vivemos tempos em que é comum o pensamento de que é preciso enxugar as despesas do Estado e cortar gastos. São tempos em que governos encaram o Estado como uma empresa e não como agente de bem estar social. Promovem cortes de gastos em áreas fundamentais, como a merenda escolar, que garantem dignidade mínima aos mais pobres. O espetáculo também levanta a bola sobre o tema da fome, que soava anacrônico durante os últimos anos pois havíamos acabado com a miséria. Mas os tempos são outros e, com a volta do Brasil ao mapa da fome, mais uma vez temos diante de nós essa chaga que é a mais terrível de todas em nosso horizonte de tanta desigualdade social.

 

FICHA TÉCNICA:

Dramaturgia: Cecilia Ripoll

Direção: Viniciús Arneiro

Assistência de Direção: Marcela Andrade

Elenco: Ângela Câmara, Dida Camero, Márcio Machado, Natasha Corbelino e Thiago Catarino

Direção de Arte: Flavio Souza

Figurinista assistente: Paulo Vitor

Iluminação: Livs Ataíde

Direção Musical: Tato Taborda

Fotos para comunicação visual: Bob Maestrelli

Mídias Sociais: Teo Pasquini

Design Gráfico: Davi Palmeira

Fotos: Paula Kossatz

Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues – Aquela que Divulga

Produção: Clarissa Menezes

SERVIÇO:

Temporada: 12 de Março a 10 de Abril Segundas e terças, às 19h Teatro do SESI: Av. Graça Aranha, 1, Cinelândia Esquina com Rua Santa Luzia R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia) Classificação: 16 anos

Dâmaris Grün, especial para o Prêmio Aplauso Brasil (damarisgrun@gmail.com)